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Vestir a camiseta

sábado, fevereiro 27, 2010

Ressuscito Cantofabule, entre outros motivos, por causa deste texto. Reproduzido e bem comentado pelo Ponto de Vista, serviu para sacudir na minha memória um episódio que talvez tenha contribuído decisivamente para formar o ser humano que sou hoje. É minimanente representativo do assunto pelas condições em que ocorreu, uma experiência muito precoce que me ensinou o que eu precisava saber sobre empresas — e mercado de trabalho em geral — deste mundo selvagem e para muito poucos que é o capitalismo.

Aconteceu no já longínquo 2004, um ano terrível. Eu vinha de um 2003 importante — havia saído de casa e iniciado uma vida de casal da qual muito me orgulho —, mas que, de alguma forma, foi negativamente impresso na minha alma. Tenho quase a certeza de que isso se deve ao meu trabalho como estagiário por todo o ano de 2003 em uma assessoria de imprensa e o que isso denota, mas, sobretudo, pelo stress de passar cinco dias da semana durante 11 meses com as pessoas com as quais tinha de conviver. Não guardo mágoas, não se trata disso. É apenas um registro do quão difícil era lidar com certas situações. Isso no ano do centenário do Grêmio.

O ano seguinte, 2004, começara então com minha saída quase triunfal desse emprego (apesar dos comovidos pedidos para que permanecesse). Vaguei durante meio mês atrás de um novo trabalho (era o verão porto-alegrense) e fui chamado à redação de uma importante revista de economia e negócios. Não guardo mágoas ali também e só trato deste assunto porque vejo muita gente de seus 20 e poucos anos perigosamente iludida (pelos outros, pelo contexto ou por si mesmas). Era meados de fevereiro de 2004.

O trabalho em si não vem ao caso — funções normais de um jornalista, com a possibilidade de assinar entre parênteses as matérias (tratamento comum aos estagiários ainda não formados). Trabalhava bastante, a exigência era grande, o salário… bem, o salário é melhor deixarmos para lá. Porque é aqui que começa a potencial lição que se pode tirar da minha história. Paga-se um salário — que ficaria melhor nominado se se chamasse bolsa, incentivo ou algo do gênero — e se oferece a “possibilidade” de preencher páginas e páginas com material tecnicamente de boa qualidade (porque as vagas são poucas e a seleção exigente). A grande “sedução” está aqui: a empresa vende para o jovem e inexperiente aprendiz de jornalista a idéia (até certo ponto verdadeira) de que ele terá a incrível possibilidade de escrever matérias e publicá-la em seu nome (dá até para mostrar aos pais, que orgulho!). Exatamente o sonho de qualquer pretendente ao ofício de jornalista, tanto que é, vejam só, exatamente o trabalho de um jornalista. Algumas das matérias que assinei, quando submetidas aos editores, tinham alteradas apenas alguns termos específicos do “economiquês”. Ou seja, todo o trabalho foi feito pelo estagiário, mas o salário é proporcional ao status, não ao esforço e à exigência. A responsabilidade é aquela do profissional.

Esse é o ponto de partida: a grande esperteza empresarial do mundo editorial de nossos dias. Pode ser que sempre tenha sido assim, ou muito parecido, mas o detalhe é que, com a quantidade cada vez maior de formados que são expelidos pelas faculdades de jornalismo Brasil afora, é possível fazer uma publicação utilizando apenas “trabalho estagiário”. Além do fato de que, com a competição acirrada por tantos pretendentes, acontece o inevitável: salários que chafurdam na lama, qualidade também, e o natural pavor de perder o emprego.

Havia um outro aspecto que faz do meu relato uma história triste. Como eu sinalizei anteriormente, a revista era (ainda é) uma publicação de economia e negócios, assuntos pelos quais sinto tanta atração quanto a que o diabo tem pela cruz. Pensava na opinião-ensinamento do mestre, que dizia (ainda diz e vai continuar dizendo, com propriedade) que todo “foca” (o jovem jornalista) deve começar pelas editorias de polícia e esportes. Deus — que não deve existir, mas que, se existir, é minha testemunha — sabe o quanto eu gostaria de ser repórter esportivo. Mas não, estava trabalhando para uma revista do mainstream, falando de rentabilidade, gestão, marketing, marcas, produção, lucros, inovação, logística, mercado, mercado, mercado. Minhas matérias repetiam sempre as mesmas palavras, as fotografias mostravam sempre pessoas em terno e gravata ou tailleur, exércitos de consultores e executivos, mesas, poltronas, fachadas e letreiros, gente sorridente de braços cruzados e olhar de soslaio ou ar sério estilo-businessman. Sempre. Há quem goste — e para esses digo que deve haver um problema muito sério com o mundo que consideram um lugar justo, interessante e agradável para se viver. Era algo de ideológico, sim.

Não era para mim, eu admito e não sonego o quanto isso representou para minha própria desgraça. Mas a minha história não difere em nada do script básico com o qual se depara o jovem (e o experiente também) jornalista perdido no mercado de trabalho: não se pode se dar ao luxo de escolher. Assim, no início de cada dia, eu tomava meu café da manhã com o olhar perdido, preocupado com a faculdade e lamentando ter de fazer o meu trabalho da forma como tinha de ser feito, e pelo mesmo motivo, ao fim do dia, sentia como se houvesse desperdiçado meu tempo de vida.

Feito o mea-culpa, o terceiro aspecto que compõe minha história é o mais importante. Nada mais é do que o ambiente de trabalho. Em sentido mais geral, o que queriam de mim — que é o mesmo que, de forma industrial, querem de todos os jovens profissionais. Nesse item entra toda a forma de ser um empregado, no meu caso, um jornalista empregado. Desde a forma como me vestia (que poderia ser mais elegante), passando obviamente pelo cumprimento dos horários, pela “fluidez” do trabalho e da produção, chegando até à motivação. O detalhe interessante é que eu não fazia a mais pálida idéia de que motivação estavam falando. Não quero parecer arrogante ou pretensioso: era consciente do privilégio de ter um emprego como estagiário que assina matérias numa revista considerada importante com apenas quatro semestres de faculdade, mas não me agradavam as censuras diversas — matérias de economia devem obedecer a um catecismo específico, com fórmulas específicas que serão decodificadas pelas pessoas que interessam; além do mais, é preciso (quem diria) um conhecimento mínimo do assunto (que tem algo de alquímico e hermético), o que não se adquire da noite para o dia. Tampouco é possível ficar contente com a exigência de produção para quem sequer atingiu a metade do tempo de estudo. (Meu emprego compreendia evidentemente matérias para a edição mensal da revista, mas também material diário para o recém inaugurado site da publicação: não era estágio, era um emprego efetivo muito mal remunerado.)

À parte todas essas questões — verdadeiros conflitos interiores — procurava desempenhar meu trabalho. Não posso dizer que o fazia da melhor forma possível, já admiti minha parcela de responsabilidade, mas de forma alguma deixava de desempenhar a função que me atribuíam (coletivas surreais sobre balanço de gestão de empresas, por exemplo, coquetéis, viagens de curta e média distância para conhecer tais e tais instalações, etc., tudo cercado de gente insípida, bitolada, fanática e/ou robotizada). Nunca neguei uma pauta, jamais pedi aumento de salário, trabalhava muitas vezes além do horário e conseguia não me atrasar. Dei a atenção que sempre dou a meus textos e, algumas vezes, procurava agradar o gosto dos editores. Certamente não resplandecia de felicidade ao receber uma pauta sobre os dez anos da Fulana S.A., como de resto por quase nenhuma pauta, mas a executava de forma minimamente competente. Jamais fui orientado a conversar com empregados (à parte secretários), apenas dirigentes. Durante meio ano meu espírito idealista se chocou frontalmente com o espírito prático: o “salário” que recebia dispensava (na maior parte) minha família de me sustentar e eu estava muito honrado com isso.

No dia 18 de agosto de 2004 (naquele mês aconteciam as Olimpíadas de Atenas), G., meu editor-executivo, um antigo conhecido do emprego passado, me chama na pequena sala usada para entrevistas por telefone e pequenas reuniões. A “parte que conta” da redação já sabia o que estava por acontecer (e misteriosamente desapareceu naquele instante), enquanto os desinformados eram apenas os subalternos — exatamente a camada onde eu havia feito amizades. G. inicia com elogios, me conhecia de algum tempo, “todos ali” apreciam muito o meu texto, que é “um dos melhores” que ele já viu. Sou uma pessoa muito bacana e responsável também. G. sempre “levou fé” em mim. Mas se vê que não era a minha praia. Na realidade, o que mais chamou a atenção de todos foi que eu não me mostrava motivado. G. estava falando agora “como amigo”: “com esse comportamento tu não vais longe, falo pro teu bem”. E então encerrou o assunto: “nós estamos te demitindo, apesar de tu teres muita qualidade (e blábláblá) basicamente porque tu não vestiu a camiseta”.

“Não vestiu a camiseta.” Aquilo virou uma espécie de mantra para mim. Não vestiu… a camiseta. Da empresa, logicamente. De fato, eu não havia vestido a camiseta da empresa. Camiseta apenas a do Grêmio, de preferência a Tricolor para ficar mais representativo e familiar. No momento em que ouvia G. falar eu estava atordoado, não esperava ser demitido no meu terceiro emprego (um estágio, na metade da faculdade!), e saí da redação arrasado. Mas (me dei conta somente muito tempo depois) eu não estava aborrecido com o fato de não precisar mais trabalhar ali. Me incomodava apenas ter sido demitido (uma questão de brio) e, principalmente, ficar sem dinheiro, por mínimo que fosse.

Passado algum tempo e com uma salutar ajuda de pessoas muito sábias e amigas, finalmente compreendi tudo e percebi que desde aquele dia ressonava em mim um orgulho estranho, algo etéreo, confuso, que talvez fosse melhor não admitir com o peito estufado. Mas eu estava e continuo orgulhoso. Fui demitido porque não vesti a camiseta, era isso que contava. Emprego arrumei logo depois, o importante é que havia sido fiel a um princípio — autodestrutivo, contraproducente, nada prático ou útil, mas um princípio. Era mais do que cometer um pênalti e apontar para a marca da cal. Afinal, me pediam algo para o qual eu não poderia baixar a cabeça. A partir daquela experiência, senti que era capaz de subverter, de estabelecer um princípio contrário ao senso comum (que, na maioria das vezes, é estúpido e equivocado) e respeitá-lo.

Não me importo se meu trabalho não me der todos os bens materiais que sempre sonhei — e que cada vez sonho menos, porque não realmente importantes. O grande problema dessa massa de imbecis que povoa o mundo hoje é exatamente usar os fins como justificativa para os meios. Isso acontece porque as pessoas se tornam cada vez mais pequenas, em diversos sentidos. Eu não tinha noção de me agigantar no momento em que sequer retruquei meu chefe enquanto me demitia. E nem sei se fui eu a me agigantar ou se é essa legião de gente ávida por ser serviçal que se apequena. Algumas delas uma vez só na vida, de forma irrestrita e irremediável.

Nesse mesmo local trabalhava comigo uma colega da faculdade. Muito tímida, falava baixo e não olhava diretamente nos olhos das pessoas. É muito correta e no tempo em que fui seu colega também na revista pude perceber como desempenhava bem suas funções, num certo sentido traíndo seu comportamento instrospectivo. Sugeria muitas pautas, entrevistava com desenvoltura e produzia bons textos. Tinha um bom relacionamento com os chefes, não submisso, mas bastante amistoso. Logo depois que entrei, passou a fazer parte da redação também um outro rapaz, recém saído da PUC-RS (como a maioria dos profissionais do local). Era diminuto, tinha os cabelos vermelhos e sardas no rosto. A voz era estridente, irritante, e exercitava a cada instante seu talento inato de tentar ser simpático, bem comportado, bonzinho e amável. Vestia camisas sociais alinhadíssimas metidas dentro da calça, o que contrastava bastante com seu rosto e maneiras infantis. Logo descobri que era ligado à Igreja, muito devoto ele. Pertencia a congregações leigas e tinha uma quedinha por ideologia de direita. Hoje, ao preparar esse texto, a título de prova dei uma olhada no expediente da publicação. Minha ex-colega de faculdade não está mais lá. O ruivinho carola tornou-se (surpresa) secretário de redação…

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