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Que vença o menos pior

sexta-feira, outubro 30, 2009

Foi na capa da Gazzetta dello Sport de ontem que li um lamento estranho. Se falava do espetáculo que a Juventus proporcionou na noite de quarta-feira e na potencial capacidade que tem para surrupiar o scudetto das mãos da Inter. Se tratava portanto de apontar duas equipes favoritas (e tradicionais) entre 20, mas ainda assim o articulista defendia que o campeonato é “demasiadamente rico em surpresas” — talvez pensasse no Parma em quarto lugar, na Fiorentina capenga ou na Roma na parte de baixo. Imagino o que teria a dizer a respeito do nosso Campeonato Brasileiro 2009…No Sala de Redação digladiaram-se dia desses inclusive numa polêmica sobre a fórmula, visto que uns ainda se sentem insatisfeitos com os pontos corridos e acalentem dúvidas sobre o mérito de quem consegue chegar ao fim de quase 40 jogos à frente dos demais. Eu não coloco em questão a pertinência da regra atual, mas a conversa no programa começou pelo ponto que acho importante debater, ou seja, a qualidade técnica do campeonato. Ainda que correndo o risco de alguém me ignorar baseando-se no fato de que não vejo a grande maioria dos jogos, comento pelo que vi e, sobretudo, pela tabela. Assiti alguns jogos do Palmeiras, vi o São Paulo e o Cruzeiro, uma que outra partida do Atlético-MG, torci pelo meu Grêmio e sequei o Inter — o que dá um apanhado geral da parte de cima da classificação, e por mais que o campeonato seja longo e os clubes se metamorfoseiem ao longo do ano, teoricamente são poucos os que conseguem acrescer qualidade. Escutei e li, isso sim, muito — e atentamente.

Repito que minha interpretação dos fatos é temerosa, mas não penso ser possível considerar mentalmente sano um campeonato em que o líder perde para duas equipes da zona do rebaixamento na reta final, em menos de dez dias. Alguns dirão, e dizem, que o campeonato é acirrado, e portanto emocinante e então, quase como uma conseqüência mágica, ele é um bom campeonato. Penso que não. Não que precise duas ou uma equipe 20 pontos à frente e campeã ainda faltando 15 rodadas. Não é um juízo de valor em relação à disputa em si (ainda não), mas sim à interpretação que se dá. E me causa um certo desgosto ouvir dizer que o Brasil tem o melhor campeonato do mundo porque é o mais disputado. Simplesmente não é verdade.

O que acontece é uma previsível confusão na hora de julgar um conceito, como quando nos perguntamos o que é arte. O que é belo no futebol? O que é emocionante? O que é bom? O que define o alto nível? Há quem olhe para a tabela e veja diretamente qualidade quando na parte de cima seis equipes se acotovelam na busca pelo título. Estão mirando números, mas enxergam um conceito — o do belo, do bom. Para mim, essa conversão automática é equivocada. Mesmo que alguns times contem com reforços importantes e de inegável competência, o nome da estrela no papel funciona como o ópio dos números da tabela: não existe sem a vivência real, aquela do campo. Uma ferramenta de investigação que seria útil aos defensores da qualidade indelével do campeonato nacional seria aquela de se questionar sobre quem é o campeonato. À parte uma ou outra grande presença nas equipes titulares, os melhores jogadores brasileiros não disputam nossa competição caseira. Falem o que quiserem dos campeonatos europeus principais, mas proporcionam bons jogos simplesmente porque têm bons jogadores. A prova do comparativo que estou propondo é que Mário Fernandes, talvez a maior revelação do Grêmio depois de Ânderson, já está na mira da Inter de Milão, e sete entre dez estrelas de qualquer rodada do italiano são jogadores brasileiros.

Acho o Campeonato Brasileiro — fazendo uma representação coletiva — um certame pobre em qualidade, já há algum tempo, e não consigo deixar de pensar que a fórmula de pontos corridos salientou ainda mais essa característica. A fórmula, vejam bem, é inocente, como disse anteriormente, e não há método melhor de se apontar o campeão. Que, no caso, penso que será aquele que exibir menos seus flagelos e limitações — o que ainda é futebol, felizmente. Que vença o menos pior.

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