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Nesta parte do mundo

sexta-feira, agosto 14, 2009

Depois de assistir a uma das melhores propagandas que já vi na vida, tive subitamente ganas de: 1) beber um belo Black Label bem acomodado numa poltrona macia de couro em tom avermelhado; 2) falar o inglês com o indefectível “r” à escocesa (assim como agora sou propenso a falar o italiano com o acento vêneto); e 3) caminhar, caminhar muito (poderia ir a Milão a pé, ver minha Veri depois de três semanas separados). Isso foi ontem; hoje acordei com o desejo número 3 intensificado e por isso decidi ir comprar o jornal no centro da cidade, já que nesse calor, para conservação da vida, não me atreveria a percorrer 300 quilômetros sob o sol. Percebi que se não fizesse algo ia acabar de enlouquecer — ainda ontem, sozinho em casa, regia uma inteira orquestra com os fones no ouvido. Aproveitei o que deveria ser uma manhã fresca depois de uma madrugada de tempestade violenta e fiz minha segunda deriva em três dias.

Na verdade a brisa durou apenas algumas horas. Mesmo assim, quando saí de casa havia um fraco vento gélido e nuvens no céu. Novamente procurei diminuir meu ritmo natural de caminhada, o que equivale a dizer que não ultrapassei desabaladamente todas as pessoas que encontrei pelo caminho. Desta vez a cidade estava risonha, talvez satisfeita com a chuva da noite e o clima ameno. Apesar de amanhã ser o feriado exclusivamente italiano de Ferragosto (Feriae Augusti, o período de descanso instituído pelo imperador Augusto ainda antes de Cristo), nas ruas transitava um número considerável de pessoas, a maioria turistas, mas vi muitos padovanos em passeio.

Fui até a Piazza delle Erbe, na volta passei em frente ao Caffè Pedrocchi, onde encontrei em movimento uma horda de turistas alemães de máquinas fotográficas em punho. Formavam um grupo coeso de umas 40 pessoas — o maior contingente isolado de turistas que já vi. Logo atrás vinham alguns franceses. “Tres jolie! Tres jolie!” Algumas distintas senhoras mantinham os queixos num ângulo de cerca 60 graus, olhando para todos os lados sorrindo, enquanto um senhor imiscuído no meio do pequeno batalhão feminino, que parecia bastante satisfeito com a visita, me saudou num italiano afrancesado, arrastando o “r” do buongiorno, certamente me tomando como padovano. Tocou rapidamente o ombro de uma idosa elegante (“ali está um nativo!”, deve ter querido comunicar) e essa imediatamente me sorriu, balançando a cabeça.

Comprei o Corriere Della Sera (o principal jornal italiano, mas abertamente centro-direitista que, por isso, quase nunca compro, mas que, exatamente por quase nunca o fazer, hoje resolvi ver o que dizia). Devo admitir que a edição estava muito apetitosa, com matérias aprofundadas, textos grandes e artigos interessantes. Caminhei ainda alguns metros enquanto esquadrinhava as páginas que mereceriam uma leitura imediata e acabei por acomodar-me num pequeno banco de pedra no centro da Via Santa Lucia, o miolo fashion de Padova. Ao meu lado havia um gentiluomo de camisa verde e ar sério mas amistoso. Lia o Libero, um jornal diário ostensivamente puxa-saquista de Berlusconi. O diretor, Emilio Fede, é despudoradamente porta-voz do primeiro-ministro também na TV, onde manda e (a calhar) apresenta o telejornal do Canale 5, de propriedade de Berlusconi. Emilio, há alguns dias, foi visto ao chegar na Sardenha para um período de férias no resort do patrão, acompanhado do mesmo. Um avião oficial os conduziu, mas isso não gerou quase escândalo algum — poucas coisas ainda são capazes de escandalizar os italianos, quando souber de uma publico aqui.

O simpático senhor de camisa verde lia, portanto, o Libero, e lamentei não ter comprado o l’Unità, ou La Stampa, ou La Repubblica. Quem sabe ainda o Il Manifesto. Como havia me dito o Ungaretti, na Europa (como acontecia no Brasil de 40 anos atrás) se pode identificar minimamente a ideologia política a partir do jornal que se lê. Como jornalista, isso é um problema, porque em tese deveríamos ler todos, e tenho certeza que já passei por direitista muitas vezes ao ser visto na rua com o Corriere debaixo do braço. Na Itália (melhor dizendo, em determinados locais mais intelectualmente ativos), a opinião política conta muito e existe uma dicotomia muito acentuada. Por isso queria tanto ter incomodado o senhor camisa-verde com qualquer outra publicação de centro-esquerda, mas estávamos, ali sentados, aparentemente aproximados ideologicamente.

Uma dezena de páginas e encontrei, de improviso, uma palavra determinante para o significado da notícia e da qual não fazia a mais pálida idéia do que significava. Me dirigi não ao camisa-verde, mas a uma mulher, que logo percebi ser padovana, pedindo que me esclarecesse a dúvida. Foi muito simpática, mas me perguntou enfaticamente se não era italiano, “pela dúvida”. À resposta, sorriu satisfeita. Viu no meu jornal uma chamada que tratava de casamentos arranjados entre extra-comunitários e italianos. Comentou comigo e percebi que queria saber se eu era casado com uma italiana. Sim, sou casado com uma cidadã, mas ela também é nascida no Brasil. Somos de origem italiana. Ah, que interessante. “Mas então tu és um italiano. Não pareces um imigrante.” Ah, que interessante…

À página 15 fiquei sabendo de novas denúncias contra soldados israelenses quando da ofensiva da virada do ano contra os territórios palestinos. Teriam massacrados civis que clamavam por misericórdia sob trapos brancos, “rendendo-se”. A organização Human Rights Watch, que tem conduzido investigações sobre abusos durante os ataques, conta já 11 civis assassinados, entre os quais cinco mulheres e quatro crianças. “Agitamos bandeiras brancas por sete ou nove minutos. De repente, abriram fogo”, contou uma senhora, avó de três meninas (de dois, quatro e sete anos de idade). No dia 7 de janeiro, em Jabalya, na Faixa de Gaza, soldados israelenses “teriam matado” (é como diz o Corriere) a sangue-frio duas delas. A anciã, uma cunhada e as três netas haviam saído de dentro de casa a passo lento e temeroso, obedecendo às ordens gritadas pelos soldados através de megafone.

Ergui quase instintivamente os olhos da página e olhei em torno. É absolutamente agradável a vida nesta parte do mundo: perto de mim havia muitas crianças, em carrinhos confortáveis, no confortável colo dos pais ou saltitando no chão. Invariavelmente as pessoas andam bem vestidas aqui. Parecem também bem nutridas,  animadas e com uma satisfação indescritível em caminhar por aí, despreocupadas, abrindo a carteira de vez em quando. Respirei aliviado, li um artigo instigante sobre o declínio da Grã-Bretanha, algo promissor a respeito da iminente recuperação econômica, o caderno de esportes, e voltei para casa.

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