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Solidão

quarta-feira, agosto 12, 2009

Não adianta, o verão é meu carrasco mesmo no hemisfério norte. À parte algumas semanas de calor de grife norte-africana (fenômenos anormais), a estação estiva é sim menos terrível que na parte meridional do planeta (por exemplo, não me faz conspirar contra a própria vida), mas ainda assim opressiva. O que me convida a permanecer na segurança do lar, já que também não há outra coisa a fazer. Minha rotina tem sido esperar, dormir, preparar as refeições (aprendo a cozinhar), ler bastante, escrever um pouco menos, assistir telejornais, futebol e doses diárias de Two and a Half Men. Vejo a rua somente a cada quatro ou cinco dias, normalmente em horários propícios à conservação de minha vida no verão, ou seja, quando o sol já não exibe aquela faceirice ameaçadora. Então, normalmente quando desesperadamente preciso repôr a dispensa, caminho pelas ruas de Padova já em tom de despedida. Hoje mais uma vez subverti a lógica do menor esforço e caminhei cerca de 300 metros a mais para chegar ao mercado do centro.

Como qualquer outro lugar assolado pela tragédia que é o verão (exceção feita, obviamente, às cidades balneárias), Padova me manifestou uma melancolia inédita, mas previsível. As ruas desertas, aqui e ali alguns idosos sentados em cadeiras de praia em frente às casas, visivelmente consternados. O mesmo nefasto tom laranja-estivo do sol que se punha cobria o topo dos prédios, que aqui são baixos e se pode ver da calçada. Caminhei longas três ou quatro quadras sem enxergar viv’alma — presumivelmente todos na praia (meados de agosto é o ápice do período das férias italianas). Segui meu roteiro favorito, subindo a Via Altinate até a Piazza Garibaldi. Ali sim, algum movimento, gente que invariavelmente caminhava despreocupada, turistas em ponto-morto, distraídos a olhar para os lados e arrastar as sandálias.

A mesma corriqueira incompetência no mercado, que provoca filas abomináveis até num fim de tarde de metade de agosto. Não eram mais de 15 pessoas dentro do estabelecimento, três quintos delas esperando até 10 minutos para serem atendidas nos caixas. A volta foi menos lenta (eu carregava cerca de nove quilos em duas sacolas que temia não suportassem o peso). A mesma desolação: ruas vazias, a mesma coloração no topo dos prédios, nenhum som, nenhum movimento. Tive de conviver com a mesma sensação angustiante (ao menos para mim) daqueles verões gaúchos longuíssimos, as pessoas na praia, nada para fazer, ninguém à vista, o sentimento esmagador de solidão. Menos mal que a programação televisiva nesta época não é das piores…

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