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Abaixo o shuffle

segunda-feira, agosto 10, 2009

Outro recente artigo do Guardian (o que faz dele meu jornal favorito, ou contra o qual eu não tenha tanto do que falar mal) trata de um assunto ao qual já dediquei algumas linhas aqui. Alguns famosos jornalistas musicais discutem a (para eles) iminente morte do álbum musical como forma de arte. Em vez de simplesmente indicar o texto, preciso fazer uma ressalva a quem dedicará à questão alguns minutos. Para mim, o álbum está agonizando já há alguns anos. Ao invés de pensar em iTunes (como suposto assassino), prefiro pensar no formato musical digital.Alguns, segundo o artigo, já falavam em morte do álbum quando da ascensão do mp3, mas parece que foi o produto da Apple a atrair a atenção. Ao contrário, sempre pensei que a propriedade de selecionar de forma fácil a música desejada dentro de um conjunto imenso de opções (digital) fosse responsável por acabar excluindo a noção de obra, “coleção de canções autônomas-mas-conectadas”, ou seja, o álbum. Se não na obtenção das músicas — e é nisso que centram a análise e por isso o foco no iTunes — no final das contas acaba tendo o mesmo resultado o player de computador ou o mp3 que, de um universo dividos em álbuns (uma das unidades básicas da música até agora), executam faixas aleatórias ao simples acionar do shuffle.

Estou traçando um comparativo entre o artigo do Guardian e minha opinião, mas na verdade nossas conclusões são bastante aproximadas. O que deixaria de existir seria a noção de “viagem” musical através do formato álbum. Isso tem reflexos previsíveis na propria música como um todo, que passa a ter como única “medida” a faixa independente. (Nem falo do universo progressivo, pelo qual tenho predileção, que surgiu, entre outras coisas, exatamente para afrontar a displicência do “mercado”, basicamente centrado em canções curtas e simples, no sentido de falta de profundidade. Discos produzidos dentro da “ideologia” progressiva às vezes contavam com apenas uma única faixa — por exemplo, Thick As A Brick, do Jethro Tull —, forçosamente divididas nos dois lados do LP — casualmente ou não, o fenômeno foi arrefecendo ao longo dos anos 70 e chegou à era do CD muito enfraquecido. De lá para cá e independente do fato de ser progressiva ou não, a concepção do álbum sofreu um pesado abalo, primeiro com o surgimento da MTV e depois com a consolidação e popularização dos formatos digitalizados.)

Isso tudo tem a ver direta e logicamente com a forma pela qual encaramos a música. A noção de produto, penso eu, nos últimos anos suplantou a de forma artística. Precisaria entrar no mérito, citar exemplos e fazer o raciocínio específico da questão musical (o que não farei agora), mas acho que qualquer discussão sobre o tema deve passar igualmente pela interpretação que se dá à mensagem tanto quanto ao formato do meio pelo qual ela será distribuída. Tenho a minha preferência (sabendo que não necessariamente um formato exclua o outro, a volta do vinil está aí para confirmar) simplesmente porque nutro sérias desconfianças acerca da “influência artística” que o meio pode provocar na mensagem.

Para quem gosta de música, acaba sendo uma questão a se pensar. Para quem gosta da música, é uma questão de posicionamento. Porque este é um caso no qual o verdadeiro “termômetro” da situação será o consumidor (na falta de uma palavra mais respeitosa). Será ele que rejeitará o download de faixas isoladas ou preferirá pagar mais por um CD (colocando a coisa exclusivamente pela ótica da praticidade), como também pode usar como parâmetro a qualidade do que está escutando. E é aí, nessa capacidade de discernimento, que reside todo o meu medo.

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