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Personalidade e escolhas

domingo, junho 28, 2009

Quase nunca usei este espaço para falar de mim mesmo, mas escrevo uma espécie de desabafo não apenas por julgar útil a outras pessoas, mas basicamente por não ter nada para fazer há cinco meses num país novo, e não ter muitas perspectivas. Além disso, enquadra-se no que já disse sobre jornalismo e a celeuma atual do diploma e do não-diploma. Viver sem horizontes concretos é um pesadelo. Além de tornar a vida difícil, torna os sonhos mais recorrentes, o que resulta numa certa amargura, que torna a vida ainda mais difícil. Admito meus erros, conscientes ou não, mas não se trata somente de erros e incapacidades, porque são duas as questões implicadas no que quero dizer: personalidade e escolhas.

Não tenho uma personalidade acessível, por mais que saiba que muitas pessoas que estão lendo estas linhas discordem ou mesmo sequer suspeitem disso. Não sou solare, como gostam de dizer os italianos. Cresci sem uma vida social “consistente”, retraído, ainda que estivesse em meio a grupos volumosos de pessoas e falasse como sempre falo — abundantemente, demasiadamente. Não me arrependo disso (de não ter tido vida social digna de nota) porque não é algo que se possa simplesmente optar. Acho que é traço de um determinado tipo de caráter, desde a mais tenra infância. Lia muito, normalmente sozinho fechado no quarto, escutando música nos discos de vinil, depois CDs — muitas vezes lia e relia unicamente o encarte, letras e agradecimentos. Nem mesmo minha relação com a música era “sociável”: não gostava de rádio musical, as FMs; preferia a solidão do disco, eu como único ouvinte, sem intermediários, e as AMs, um prelúdio de meu encanto jornalístico. Verdadeiro milagre não ter me tornado um individualista. Concentrava-me nos livros, e somente a boa escrita pode ser mais solitária que a boa leitura. Procurava sempre, com todas as forças do espírito, retêr as coisas na memória. Não viveria sem memória, mas isso acabou gerando uma espécie de melancolia natural.

Então descobri que era jornalista. Porque jornalismo é um estado de espírito, não uma profissão. Objetivamente falando, esse evento fatalmente determinou meu destino imediato (até o momento). O mal de se amar o jornalismo é sua total confusão: é natural apaixonar-se pela técnica jornalística, venerar Gay Talese, Tom Wolfe, desejar sinceramente estar em meio a um conflito árabe-israelense, transmitindo ao vivo, escrever uma grande reportagem em estilo new journalism ou narrar uma grande final de Copa do Mundo; mas o real objeto de desejo é potencialmente o Tudo. Qualquer coisa, não apenas aquilo que pode tornar-se uma pauta ou que os leitores se interessariam. Tudo que está no mundo enfeitiça positivamente o verdadeiro e bom jornalista. Daí a como ele codificará esse encanto nos termos da profissão ou do mundo produtivo é outro assunto. O fato é que é a diversidade, a vontade febril de abraçar o mundo inteiro que faz uma pessoa pacata tornar-se um verdadeiro jornalista.

Então chego ao momento atual. Tenho 28 anos e quase nenhuma perspectiva imediata. Pensando como núcleo familiar, tampouco: minha Veri também é uma verdadeira jornalista. As causas disso são variadas e muitas. Não entro no mérito, que já abordei em outros textos e que, para quem pensa, é de um determinismo bastante lógico. Tem a ver com a organização produtiva das coisas, a venda de informações e conhecimento como qualquer outro negócio — como vender liquidificadores ou planos de internet, produzir um carro numa linha de montagem ou operar um paciente. Tem a ver também com o tipo de personalidade da qual estamos tratando. A minha é aversa ao sucesso, assim me parece. Não sei me propagandear, não acho razão nisso. Daí que não sei procurar as coisas, não tenho a mínima intimidade em perseguir objetivos, mesmo que tenha a determinação. Sou tímido, a despeito do que pensem os que já me ouviram falar pelos cotovelos. E costumo fazer, como cereja do bolo, uma interpretação doentia das coisas e das situações. Me enche de pavor a eventual noção errada que as pessoas terão de mim a partir de minhas opiniões ou de como aparento ser. Me desmotiva a abrir a boca a sensação prévia de que vão me perguntar de onde sou ou como sei o que estou falando.

Tudo o que me impeliu a esses raciocínios são frutos de minha personalidade e das minhas escolhas. O jornalismo não entra como escolha pelo motivo que já disse: sempre o considerei mais como uma conseqüência, um evento natural e pré-determinado. Pode ser que eu esteja errado, mas o sintoma disso é que jamais, nem por um segundo, desejei ou me imaginei fazendo outra coisa que não jornalismo. A personalidade é, acho eu, 60% responsável por esse momento de angústia — se é deficitária naquilo que serve deve ter um peso maior. O fato de ser jornalista, um ofício do qual, a rigor, ninguém precisa, é importante, mas minoritário.

Não é de surpreender, portanto, o deslocamento que eu, assim como várias outras pessoas com problemas semelhantes, enfrentam em relação à sociedade como um todo. Aqui na Itália (no Brail não é diferente), sou vítima de meu próprio currículo: quem iria contratar um jornalista para atender em um bar, mesmo que o jornalista esteja enfaticamente precisando atender em um bar? A não-compreensão dessa pergunta e de tudo o que significa me coloca onde estou: arriscando num país novo, intrincado e complexo, sem emprego, sem perspectiva real de obter um, sem jornalismo, sem poder aproveitar as coisas, sem fazer aquilo que gosto e que acho importante.

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One Comment leave one →
  1. João Dal Mollin permalink
    quinta-feira, julho 16, 2009 5:26

    o rapaz, te anima aí! no teu texto eu só vejo qualidades enumeradas. além do mais, falando em objetivos, vcs correram muito atrás de estar aí… com o passar do tempo, só vai melhorar.
    grande abraço!

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