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Tergiversação, despiste, cegueira ou hipocrisia

quinta-feira, junho 25, 2009

O que eu penso sobre a decisão do ministro Gilmar Mendes — que parece querer se inscrever como protagonista da história recente do Brasil — é a mesma que tenho para muitas coisas: uma linha de raciocínio que me esforço em manter clara dentro de um contexto de confusão total, o que faz minha opinião ser rocambolesca como de costume. Não acho que a formação acadêmica dê as bases para quem quer que seja exercer o jornalismo. Sempre pensei que jornalismo não se aprende, e isso não se deve a uma visão egocêntrica, elistista, coorporativa, narcisista ou romântica. É possível nascer ou não nascer jornalista: quem não o fôr de verdade pode estender seus estudos ao mais específico pós-graduação oferecido pelas mais prestigiosas universidades do mundo. Será apenas um jornalista medíocre, como 90% da classe do mundo todo.

É evidente que quando digo nascer jornalista faço uma figura de linguagem. O que quero dizer é que o jornalismo é diametralmente oposto a todas as outras profissões no que diz respeito à técnica de aprendizado. Me explico melhor. O Jornalismo não existe como existe o Direito, a Medicina ou o etéreo conhecimento psicológico e a objetivíssima Engenharia. Não tem como ser representado naquelas estátuas antropomórficas da Renascença porque o Jornalismo é as coisas que o formam, é tudo. Não acho que se aprenda o jornalismo, o que é possível acumular são as ferramentas que são necessárias para praticar o jornalismo da forma correta. Falo de uma formação humanista. Não há sentido algum em juntar duas ou três dezenas de jovens mentes numa pequena sala por um semestre inteiro para adestrá-las ao uso de um microfone ou uma telecâmera — e, acreditem, acontece nas melhores faculdades de comunicação. Isso é quase um ultraje a pessoas que decidiram se dedicar a um dos mais nobres ofícios da Humanidade: tratar, pensar e transitar informações, conhecimento, verdades. Levar às pessoas o que outras pessoas estão fazendo, dizendo, pensando. Relevar o que a massa não percebe. Não deve parecer obra do acaso a Faculdade de Comunicação da UFRGS, apenas para citar um exemplo, estar encravada em meio ao campus das ciências da saúde, afastada um bom bocado de quilômetros das ciências humanas, da história, da geografia, da política, da antropologia, da lingüística…

Um jornalista, em síntese, deve ser um intelectual. Precisa pensar. Do contrário, será apenas mão-de-obra, “mula” de informações como mercadorias, desse mesmo tipo que abarrota as redações agora enxutas dos veículos de todo o mundo, transformando o último porre do artista global em chamada de capa, copiando e colando, fazendo publicidade em meio às notícias, ouvindo sempre o mesmo lado e telefonando aos gabinetes para garantir o seu press release que vai reproduzir depois de forma automática nas páginas dos jornais, da internet ou nos meios eletrônicos. É extremamente irônico pensar que muitas pessoas crêem que o que não está na imprensa não existe. Querer, ou defender, que um jornalista pense não é romantismo, mas vai totalmente de encontro à realidade atual. O que os cursos de jornalismo fazem, sobretudo no Brasil, é adestrar para a covardia de quem manda, seja quem for.

O diploma de jornalista não representa em essência nada daquilo a que se propõe — a comprovação do conhecimento adquirido —, basicamente por não ser possível. As faculdades não ensinam, mas, na minha opinião, aqui está o ponto. Não quer dizer que não devam orientar, que não devam existir. Para mim, o erro da decisão de tornar desnecessário o diploma para exercer o jornalismo está no fato de que não leva a discussão para onde deveria, para a formação dos jornalistas, que, a meu ver, deveria ser a de orientar para pensar, não a de segurar microfones ou redigir leads. Ao invés de diplomados inaptos para o ofício, teremos agora qualquer pessoa inapta exercendo o ofício. A hipocrisia que ronda esse assunto torna tudo impossível e assim tudo agora ficará mais difícil.

O diploma tampouco deve ser um “passe” corporativo. Existem muitos jornalistas de primeiríssima grandeza que jamais sentaram em um banco universitário. A questão toda, a síntese de minha opinião, está na aquisição da base intelectual necessária para se poder tratar a realidade no formato jornalístico — isso deveria ser o currículo de uma faculdade de jornalismo séria. Toda essa celeuma sobre o diploma e o não-diploma é tergiversação, despiste, cegueira ou hipocrisia. Ou tudo isso junto. Basta abrir um jornal qualquer para se dar conta da complexidade da questão.

O que não pode, de qualquer forma, é a relativização do papel do (bom) jornalista dentro de uma sociedade civilizada. Com ou sem essa formação universitária ridícula atual. (Acho que voltarei ao assunto.)

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