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Mas bem capaz…

sábado, junho 13, 2009

O grande dilema segue sendo o de sugerir às pessoas versões alternativas e embasadas para evitar o contágio da mentira, do cinismo, da hipocrisia. Porque verdade e mentira podem ser, paradoxalmente, questão de opinião. Me escandalizo basicamente com duas coisas no que diz respeito ao pensamento político (no sentido de ação coletiva em vista de um objetivo comum) das pessoas: a incapacidade de encarar certas coisas de forma séria e a absurda vontade de se auto-enganar. Atualmente, as pessoas — digo de modo bastante geral — se esforçam para não se incomodarem. Por que deveriam? Cada um vive sua vida num contexto deliberadamente minimizado. Qualquer “invasão” desse contexto — que, além de minimizado, é extremamente manipulado — é uma violência e deve ser combatido com dois procedimentos-padrão: ou a ignorância dirigida, ou a relativização das coisas até o ponto de tornar o raciocínio dispensável.

Mas nem tudo é vontade consciente de deturpar a realidade, e aí temos outro enorme problema. Trata-se, mais uma vez, da conhecidíssima manipulação alheia, aquela de tipo inter-pessoal que encontra eco no subjetivo, claro. Recentemente, travei um pequeno colóquio com uma pessoa ligada à área da saúde e ao mesmo tempo muito próxima a mim. Falávamos da gripe suína e eu tentava sugerir — vejam bem, sugerir — a possibilidade de uma causa alternativa para aquilo que foi chamado de pandemia. Era uma sugestão porque não investiguei, não tenho fatos relacionados a este evento, mas sim a outros símiles, o que permite conjecturas, parâmetros, comparações, exercícios mentais. Sustentei que a gripe, da forma como ocorreu e, sobretudo, como foi abordada, poderia servir pura e simplesmente como desculpa para uma recuperação do setor farmacêutico, também ele sacudido pela gravíssima crise econômica. Em síntese, meu raciocínio é o de que uma pandemia de gripe originada no interior do México (país periférico, mas nem de todo desprezível no cenário mundial) poderia “turbinar” as vendas de drogas muito casualmente — isso é fato — produzidas por um único laboratório. A melhor propaganda da tal pandemia seria sustentada pela ação dos próprios governos, que agiriam de boa-fé através de medidas de segurança médica e outros procedimentos indispensáveis nessas situações — como, casualmente, adquirir medicamentos.

Não vem ao caso se foi exatamente isso o que ocorreu — minha tese é sustentada no fato de que, de fato, morreram pouquíssimas pessoas em razão da gripe e outros muitos pontos que, como disse, não vêm ao caso. Não estou com isso afirmando que se tratou de uma fraude mundial. Digo apenas, e é por isso que escrevo essas linhas, que a idéia perturba. Por isso ela é descartada quase imediatamente. Investigar essa hipótese esbarraria em uma série imensa de obstáculos bastante práticos para um jornalista, mas o maior deles é a vontade desesperada de auto-engano das pessoas, aliada à manipulação cotidiana, nas pequenas e grandes coisas que vão formando um subjetivo. São os chamados bens simbólicos, que batidos dia após dia na cabeça das pessoas, impedem que se possa imaginar uma grande armação mundial do mercado farmacêutico, por exemplo.

A gripe pode ter existido, ter se originado dos simpáticos porcos mexicanos e ser de grande risco para a sanidade do mundo, mas quero frisar que não é esse meu ponto. A questão está no fato de que qualquer coisa em contrário é “inimaginável”, delirante. Meu interlocutor riu desdenhosamente, como eu esperava. Julgou — mantendo um respeito aparente — “improvável”. Mesmo assim, repetidas vezes tive de ouvir aquela nossa interjeição bastante própria, gaudéria-portoalegrense: “bem capaz!”.

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