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Efeito Guardiola

sábado, junho 6, 2009

O Barcelona ainda comemorava em campo o título da Champions League, as câmeras enquadrando seguidamente o técnico vencedor, e Sandro Mazzola — ex-jogador, agora comentarista da Rai, filho de Valentino Mazzola, um dos ídolos do Grande Torino dos anos 40 — defendia uma idéia sua que viria a se confirmar nos dias seguintes e que passou a denominar toda uma problemática do período de contratações e de preparação para a próxima temporada européia. Talvez ele tenha cunhado a expressão que ganhou sentido para a imprensa naquele instante mesmo. O fato é que, atualmente, aqui na Itália mas imagino que no continente todo, fala-se seguidamente de um certo “efeito Guardiola” a partir da conquista do treinador de 38 anos. Não me parece exagero, visto que a Juventus, por exemplo, confirma hoje Ciro Ferrara como allenatore para a próxima temporada. Ferrara encerrou a carreira de defensor há pouco e, desde então, trabalha como acessor técnico da Azzurra ao lado de Marcello Lippi. Ou seja, jamais exerceu a função de treinador, ainda mais em um clube de relevo internacional. Como Leonardo. O autor do cotovelaço do século assume um Milan sem Maldini, quase certamente sem Kaká, Pirlo e Seedorf, entre outros. Além da inexperiência, ganha problemas imensos e bastante objetivos logo na chegada.

Mas a questão aqui é o fato da mudança de postura em relação ao cargo de técnico de futebol, ao menos no cenário italiano. Penso que não deixa de simbolizar uma certa carência de mão-de-obra — lembro, como contraponto, que a Copa do Brasil será decidida por dois técnicos oriundos de um mesmo estado e que um deles está em seu segundo grande clube apenas. O Brasil, ainda para seguir na comparação, reúne nas casamatas gente de talento comprovado, como Luxemburgo e Autuori, sem necessariamente se pautar pela idade do treinador. Aqui, observando atentamente os noticiários esportivos, se percebe — mesmo que, obviamente, não se admita — o grande esforço que precisa ser feito para encontrar técnicos de qualidade relativa, daqueles que a torcida precisa esperar os resultados para poder vaiar à vontade ou eleger como o novo grande mestre. Grande parte do escâmbio de treinadores se dá entre personagens que, já se sabe de antemão, dificilmente poderá surpreender (seja pelo grupo de jogadores, seja pelas experiências precedentes do técnico).

O tal efeito não é uma ilusão. Somos autorizados a imaginar que, caso Guardiola falhasse em um ou dois dos três títulos que venceu nesta temporada, nenhum clube de relevo do cenário europeu se atreveria — porque é disso que se trata, um atrevimento, uma subversão do mito do treinador — a colocar na direção técnica jovens inexperientes. Não conheço o contexto exato que levou o Barcelona a confirmar Guardiola como treinador, mas recordo que foi uma circunstância de ocasião, não um pensadíssimo plano, conseqüência de um planejamento estratégico e coisas do tipo. Acho mesmo que existe um paralelo de condições entre Guardiola e Ciro Ferrara, por exemplo — à parte o fato de que o “evento” que é Ciro Ferrara como técnico da Juve só existe a partir do evento Guardiola. É essa a essência do que Sandro Mazzola chamou de Efeito. No que está completamente correto, penso eu. Mas ele mesmo usou um tom preocupado ao raciocinar sobre o que havia dito: “Haverá muita gente, dirigentes e os próprios novos jovens treinadores, que acharão que podem repetir o feito de Guardiola, apostando unicamente no fato de reproduzirem um caso de sucesso unicamente pelo fato do técnico ser jovem. Isso é errado”. No que eu acho que vê muito bem.

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