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Veneza e as Quatro Estações

segunda-feira, junho 1, 2009

Foi na Veneza de seu criador que compreendi todo o significado das Quatro Estações (aqui e aqui para download, em diferentes execuções), quase como em um rito iniciático. Eu a “ouvia” por todos os cantos. Estes quatro concertos sempre exerceram sobre mim um encanto especial, que se chocava com as muitas ressalvas que o mundo da música erudita colocava, e coloca, sobre eles. Vinícius Prates, meu talentoso ex-professor de flauta, um dia me explicou parte desse “ranço”. Me contou que o regime fascista, precisando de um “ícone ideológico musical” que o representasse, “elevou” Vivaldi assim como o nazismo se sentiu simbolizado em Richard Wagner e suas Valquírias. Vivaldi seria portanto um fenômeno forçado do século XX. Aí temos duas questões: a primeira e mais saliente é a impressão de que Vivaldi não reunia as qualidades musicais que fizessem dele um dos vultos sagrados da música; a segunda é que essa identificação forçada fez com que a política se misturasse à arte e suas composições de alguma forma passassem a “carregar” a ideologia fascista. Tanto uma como outra consideração são violências, me parece, já que, com toda a probabilidade, o Padre Vermelho (Vivaldi era religioso e ruivo) não compartilhava qualquer ideologia aparentada com o fascismo ou mesmo que sua música fosse inocente brincadeira de criança — não sou especialista em música, mas como arte penso que deva ser avaliada também pela emoção que provoca.

Finalmente “vi” o verão representado por Vivaldi. Chegávamos à Piazza San Marco afolada, o dia estranhamente nublado após semanas de sol. A luminosidade cinzenta, mas clara, rendeu excelentes fotos, sobretudo da Basílica e do Palazzo Ducale. Então aquela massa cinzenta começou a se mover. Ouvi então os acordes mais nitidamente, nervosos, rápidos, acompanhando o vento quente, ma non molto. Em alguns instantes, ou compassos, a chuva caía, levantando o cheiro de terra úmida que certamente serviu de inspiração ao Prete Rosso. A praça rapidamente se esvaziou dos turistas, ficando livre para a minha imaginação (ou recordações?) preenchê-la de imagens do passado, quando a Sereníssima era uma funcional e bela capital do mundo, muito mais que a disneylândia histórica e artística de agora. E ali estava, me envolvendo por completo, uma das composições mais espirituosas da música em todos os tempos. Digam o que disserem.

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