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Empresas são organizações totalitárias II

sábado, maio 16, 2009

Na ânsia de tentar não ser tão prolixo acabei sonegando no texto anterior dois pontos importantes. O primeiro é que não faço um ataque ao liberalismo gratuitamente, por mais que assim possa parecer, nem de forma arrogante (espero). Minha discordância é básica, quase orgânica, simplesmente porque o liberalismo carrega em si a “alma” econômica do sistema capitalista: em uma palavra, injusta. O aspecto da verdadeira ditadura praticada pelas empresas é apenas a face mais visível de uma ideologia que, a meu ver, faz água por todos os lados em relação a uma ideal organização social e tudo o que isso determina. Acho válido a crença num sistema, qualquer que seja, mas essa mesma crença deveria, penso eu, ter o seu limite na medida em que se demonstra ad nauseam a precariedade dessa ideologia — qualquer uma.

Isso faz com que seja completamente desnecessário o costumeiro contra-ataque quando se chega a essas discussões, digamos, macroscópicas. Que é o contra-argumentar listando os possíveis “podres” do lado contrário, do antagonista. Talvez isso seja uma percepção otimizada minha pelo fato de estar na Itália, onde tudo é polarizado e a prática recorrente nos debates políticos (comuns na grade televisiva) é a de “minar” o adversário, desautorizá-lo, até ridicularizá-lo. Pode ser que eu esteja, ao invés de clarear as idéias e ver tudo de forma menos complexa, na verdade atestando uma confusão absurda e progressiva, uma curiosidade por tudo já que cada vez tenho menos certezas. O que é bom, acho. Cada vez mais tenho a impressão de que sei muito pouco sobre o que é certo (e que talvez não exista apenas “um certo”), mas tenho uma melhor percepção do que está errado.

O segundo ponto é que negligenciei uma informação talvez já sabida por todos, mas que no contexto não custa lembrar já que têm a força de um argumento decisivo — ou assim me parece. Na minha crítica ao sistema empresarial/capitalista/liberal foquei na restrição — às vezes ao nível mais básico — da liberdade individual (e, consequentemente, da vida de uma pessoa na máxima acepção da palavra). Pensava na relação da pessoa subjugada a uma empresa em relação ao restante da sociedade. Mas há um aspecto interessante na própria relação da pessoa com a empresa: o fato de não poder questionar nada e, mais grave ainda, não poder organizar-se para questionar nada. Que a fragmentação da sociedade como um todo é fato não é novidade nenhuma, mas esse processo — deliberadíssimo — não é percebido como tal e como imprescindível para a manutenção das coisas como estão (mal, terrivelmente mal; ou não?). Wall-Mart e McDonalds, por exemplo, proíbem a associação de seus funcionários em sindicatos, o que é contra a lei na grande maioria dos países. Posso estar me equivocando, mas acho que, nesta situação, resta apenas a opção de fazer o seu trabalho — que certamente não agrada a ninguém, ou quase —, da forma mais passível que se possa suportar, pelo salário ridículo e obviamente insuficiente. Quase como um escravo. A “escravidão” hoje tem muitas formas variadas que são — gravíssimo isso — subjetivamente absorvidas como aceitáveis. Ou não?

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