Skip to content

Empresas são organizações totalitárias

sexta-feira, maio 15, 2009

Empresas, em geral ou 98% delas, são estruturas absoluta e extremamente autoritárias. Algumas beiram o totalitarismo, e me parece melancolicamente irônico o fato de muitas pessoas defensoras de uma espécie de liberalismo ou simples entusiastas entregarem sua ideologia a organizações que restrigem ao último nível exatamente a liberdade individual. Evidentemente sei que, como ideologia econômica, aí entra uma miríade de outras questões a serem consideradas. Mas acho que, no caso da estrutura autoritária das empresas, a conclusão do que afirmei na primeira linha seja indiscutível e indubitável — a não ser, claro, que jamais se tenha “desfrutado” do modelo, ou que se queira negar até a morte, por qualquer razão subjetiva ou freudiana. O paralelo que se poderia fazer é com uma comunidade criada no orkut que “homenageia” Walter Salles (Quero ser Walter Salles — Porque o Brasil é sempre mais bonito quando você é multimilionário e mora na França). Concordo, mas penso que falte um pouco (muito) de autocrítica, porque ser liberal tomando como base um país do chamado Primeiro Mundo no século XXI é quase fazer a mesma piada, só que ao contrário e involuntariamente contra si mesmo. Quero dizer que é muito cômodo, simplista e quase covarde defender um método ao qual não se aplica a si mesmo. Não falo de ninguém em particular, apesar de ter algumas pessoas caras nesta situação. Me refiro, ou tento, à ideologia como método que se defende porque eventualmente se acha o melhor caminho para o melhor futuro possível, sem recriminações ou maniqueísmo.

Na situação na qual eu e a Veri estamos, toda essa percepção fica mais clara e não é necessário se sentir um rejeitado no mercado de trabalho para chegar à conclusão de que empresa, falando de modo complessivo, é um meio bastante insalúbre para se viver. Que dirá para organizar a base de uma sociedade — tanto do ponto de vista do trabalho como também de todas as outras variantes que fazem de um ser humano um indivíduo. Porque a ideologia capitalista/empresarial altera sim toda a referência da vida de uma pessoa. Próximos a nós, tanto aqui no norte italiano quanto em qualquer outro ponto do mundo ocidental industrial (vitoriosa que foi essa ideologia), é possível reunir exemplos a serem julgados sem qualquer preconceito. Juro que é o que tenho feito nos últimos quatro meses (reunir dados e exemplos), apesar de não gostar de citar exemplos porque a discussão fatalmente girará em torno do microuniverso que é o próprio exemplo, mas alguma coisa é necessária para elucidar.

Ouvi um comentário dia desses. Vinha do chefe da divisão de vendas ao consumidor final de uma grande empresa de telefonia e internet. À parte o psicótico comportamento completamente permeado de “práticas de marketing”, uma coisa realmente doentia, as palavras resumiam um conceito a meu ver perigosíssimo: “Às vezes trabalho duas semanas de domingo a domingo. Recentemente, fui convidado pra passear no barco novo que um amigo, que não vejo há tempos, comprou. Não fui, claro. Mas em compensação tenho o carro que quero”. Uau, que coisa edificante, não?

Parênteses: como já adverti, sei perfeitamente que não se pode tomar o todo a partir de uma parte e sempre — sempre — nestas discussões a maior preocupação dos meus interlocutores é relativizar o que acabei de dizer, ou seja, o milésimo décimo terceiro exemplo que citei. Acho apenas que, talvez, o problema não esteja realmente nos meus olhos, na medida em que tento ver de forma diferente, reunindo 1013 exemplos, mas sim na constante desautorização dos próprios exemplos como dignos de uma coisa real.

Penso agora que talvez a maior elucidação de como funcionam as coisas nesse mundo que criaram para massificar produção e controle — porque, no frigir dos ovos, é disso que se trata — seja o simples fato de se necessitar de um emprego. Nessa situação (que põe de lado qualquer peso de personalidade, que por sua vez determina uma cadeia imensa de outra coisas, como a profissão que se escolheu, ou a forma de trabalhar), a única coisa a ser feita é admitir o enquadramento. Porque o sistema como sistema não foi feito para profissionais liberais (cito a esmo) ou pessoas que têm o total ou maior parte do controle sobre suas ações — não porque são brilhantes ou porque nasceram em berço esplêndido, mas simplesmente porque quem pode “dribla” a lógica do próprio sistema, ou seja, “foge” da necessidade de se enquadrar. Com isso não quero dizer que não estão à mercê de algumas imposições, mas apenas que essas se encontrarão em qualquer sociedade civilizada. O ponto está no fato de “se vender” o próprio trabalho. Ora, quem vende o próprio trabalho não é livre na medida em que não tem escolha. Por que uma pessoa “livre” deve invariavelmente estar num trabalho que não lhe agrada das 10h às 20h, com uma hora e meia de intervalo, trabalhando de pé ininterruptamente por 500 euros mensais? Alguém conseguiria me explicar satisfatoriamente? Porque se sim, viro entusiasta liberal eu também.

Há dois anos, um grave incidente de trabalho na fábrica da Thyssen-Krupp em Turim deixou mortos vários operários. Na Itália, acidentes do gênero são uma verdadeira praga nacional, mas o caso se tornou símbolo por reunir alguns elementos comuns a essas tragédias (não apenas na Itália), como negligência da empresa, carga horária excessiva e maquinário “ajustado” para uma maior produção com menos despesas. Ontem, enquanto ainda se desenvolve o mega processo judicial, me chegou aos ouvidos uma informação desconcertante e que, não por acaso, não se viu em nenhum jornal. Algumas dezenas de funcionários da Thyssen foram demitidos por se constituírem parte civil no processo. Mandados embora com uma “carta de apresentação ao contrário”: no mercado turinense, o segundo maior da Itália, nenhuma empresa os quer trabalhando mais. Não preciso dizer que, no papel, qualquer cidadão pode se constituir parte civil em qualquer processo. Será que coerção é um bom termo para descrever o que este fato representa? Ou seria simplesmente vingança? Ou quem sabe é uma forma de propaganda ideológica, um “recado?

O que comentei aqui foram coisas que vi, que ouvi in loco. Casos assim encontram-se fartamente sobre o papel ou no relato de pessoas. Basta querer ler ou ouvir. Basta querer saber. Poderia falar (na verdade apenas acenei) sobre a questão individual. Como uma ideologia como a empresarial apodera-se das pessoas, de suas mentes, alterando o comportamento, opiniões… Moldando uma personalidade condizente com o que quer. Não falei disso porque seria muito (mais) extenso. Talvez um dia comente minhas visitas às empresas e o que observei — não como alguém que discorda, mas como simples observador, como jornalista; inclusive como alguém que admitia o enquadramento por necessidade, refleti depois. Posso falar do tratamento, nas maneiras de falar, de se vestir, de se mover das pessoas. Da arquitetura do lugar, os pôsters nas paredes com mensagens (existe uma arquitetura nazista, ou positivista, mas ninguém ousaria atribuir ao conceito empresarial um conceito arquitetônico, ou de moda).

Sintetizando, tento apenas lançar um ponto de dúvida em quem baseia sua ideologia (seja econômica, social, política, filosófica ou, não deixa de ter sentido, religiosa) em estruturas como as empresas. São atmosferas doentias, o mínimo que posso dizer sem querer magoar ninguém ou correr o risco de ficar desempregado eternamente.

Anúncios
2 Comentários leave one →
  1. Daniel Ricci Araújo permalink
    domingo, maio 17, 2009 14:42

    Essa estrutura que tu citas é feita de um trilhão de “exemplos isolados” que juntos são, seguramente, a maior comunidade de “exemplos isolados” que a raça humana concebeu desde a sua criação.

    Isso é o que eu chamo de “círculo vicioso”.

    • julianobruni permalink*
      quarta-feira, maio 20, 2009 4:48

      Ah, pois é. Essa é a maior desqualificação do assunto. Sempre são casos isolados. É como o papo sobre imigração que anda muito em voga por aqui: “Os estrangeiros são todos aproveitadores, mas os que eu conheço são todos gente boa”. Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: