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Os três lados da questão

quarta-feira, maio 6, 2009

sidethreeAdrian Belew é americano, tem feição de pateta, uma coroa de cabelos que lhe cai de cima das orelhas até os ombros, não obstante a furiosa calvície que lhe depenou o topo da cabeça. Os dentes são um tanto tortos e dão volume ao lábio superior. Talvez lembre um pouco Jerry Seinfield. A expressão é sempre amigável, olhos bondosos. Belew tem como cartão de visitas o fato de ter sido vocalista e segundo guitarrista na segunda fase do King Crimson, uma das bandas mais geniais da música progressiva. É um guitarrista fantástico, colega de seu ex-chefe Robert Fripp em pensar inovações e experimentações no instrumento. Não me agrada por completo como vocalista, muito em parte por cantar aos berros nos três discos do King Crimson dos anos 80 (não exatamente berros, injusto da minha parte; digamos, uma potência vocal um tanto elevada demais: sua voz simplesmente é assim).

Ele é o símbolo (por ser a novidade e por estar na linha de frente) do King Crimson daquela fase complicada para a música progressiva — o que quer dizer muito, mas me limitarei a dizer que foram tempos que produziram álbuns não geniais. Contribuiu em muito para o som da banda desafiar o que já tinha sido feito ao mesmo tempo em que não cairia em armadilhas que a terrível década de 80 preparou para a música.

Foi por essas razões complexas e subjetivas que releguei na minha lista de descobertas os álbuns da carreira solo de Adrian Belew. Sempre li comentários elogiosos e sabia que era considerado um dos grandes guitarristas da música, mas a parcela de “culpa” de Belew nos discos do KC me amedrontava. Ainda estou sem minha “biblioteca musical” e lanço mão de alguns álbuns conservados ou adquiridos há pouco. Dias atrás me dediquei a Side Three, parte conclusiva de um projeto conceitual, lançado em 2006. Não conheço ainda os dois álbuns precedentes, mas duvido muito que superem este e posso dizer que finalmente estou convencido da grande, grandíssima qualidade musical de Belew, como instrumentista e também como vocalista — até porque ele toca todos os instrumentos, com raras faixas trazendo alguns ilustres convidados; e não canta gritando.

Duas palavras resumem a questão: ecletismo e criatividade. Side Three, de 12 faixas, aponta pra tantos estilos diferentes que é difícil não se agradar da maior parte. A música eletrônica é a face mais surpreendente do disco para mim, e até conhecer trabalhos com os quais só tive contato recentemente, considerava a eletrônica uma pseudo-música, mais uma coisa que engana ou atrapalha do que algo que acrescenta — à parte, logicamente, grupos como Kraftwerk e Tangerine Dream. Adrian Belew é o tipo de músico que sabe dar sentido a bips e samplers, batidas e texturas de computador. Ele integra a eletrônica num contexto musical muito mais rico que a eletrônica em si — que, a meu gosto, continua sendo um corpo sem vida, sobretudo na atualidade, ou mesmo uma “droga sonora”, no sentido de entorpecente.

À parte o fato do álbum iniciar com duas faixas fracas a meu ver, no todo o resultado é um disco altamente recomendável. Comprável, se entendem o que quero dizer. A penúltima faixa, “Red Bull Rides a Boomerang Across the Blue Constellation”, parece saída do Kling Klang, o estúdio criado pelo Kraftwerk nos anos 70 que deu origem à eletrônica. “Cinemusic” é curtinha e louca. “Drive” é uma trilha interessantíssima, trabalhada na guitarra de forma bastante límpida e acessível. “Whatever” é “roubada” do King Crimson (natural que fosse se impregnar da estética que ajudou a criar). “Beat Box Car”, assim como a faixa de pouco mais de um minuto “Crunk”, agradariam muito à imensa legião moderno-hype-anos 2000-geração iPod — fico imaginando se as pessoas não se limitassem tanto à ponta do iceberg, normalmente “sugerido” comercialmente em busca de lucro: se surpreenderiam com a quantidade e qualidade das coisas “não-óbvias” que apreciariam.

Voltemos a Side Three. Parte-se de eletrônica, mas chega-se a coisas como a faixa oito, “Men in Helicopters version 4.0” — que imediatamente assimilei como uma composição co-assinada pelos Beatles e o Gentle Giant. Orquestrada, quase setentista, uma espécie de “Eleanor Rigby”, que por sua vez é irmã de “A Dog’s Life”, irônica em seu protesto pela natureza sem ser piegas (“The planet is ours to ruin?”). A cereja do bolo vem cedo, já na faixa três, “Waters Turns to Wine”, uma canção relaxante, apoiada em uma base intrincada de pequenos estalinhos, uma harmonização que mais parece uma desconstrução. Robert Fripp (“o” King Crimson) participa do disco nessa faixa tocando flute guitar — que eu gostaria muito de saber o que é exatamente.

De resto, falta alertar o de sempre: como a grande maioria das coisas às quais acho justo dedicar um texto, esse é um disco “estranho”, para usar o linguajar das “pessoas normais”, o que é outro termo curioso. É definido como avant-garde rock e eu concordo (mania de jornalista de categorizar as coisas). É complicado explicar, mas Side Three é um daqueles discos acessíveis, mesmo sendo estranho. É fruto de uma idéia aliada à liberdade, não resultado de uma onda, uma moda ou de alguma ditadura comercial.

:: ADRIAN BELEW
:: SIDE THREE
:: Sanctuary Records
:: EUA, 2006
:: 38min 40seg

1. Troubles (3:13)
2. Incompetence Differerence (5:01)
3. Water Turns to Wine (3:46)
4. Crunk (1:17)
5. Drive (3:27)
6. Cinemusic (1:37)
7. Whatever (3:17)
8. Men In Helicopters v4.0 (3:07)
9. Beat Box Car (4:30)
10. Truth Is (1:34)
11. The Red Bell Rides a Boomerang Across the Blue Constellation (4:34)
12. & (3:17)

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