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O queijo e os vermes: a propósito de livros e conexões

domingo, abril 19, 2009

queijo_e_os_vermes1Os grandes livros, penso eu, são os agentes responsáveis – como sustentou Ungaretti certa vez – por estabelecer as conexões no emaranhado de idéias e informações que retiramos do mundo. O caos me apaixona, mas se revela um muro. Hoje, em nosso mundo moderno, vivemos talvez no maior caos que o planeta testemunhou, mas nossa percepção é constantemente levada para o outro extremo, para a noção de organização, de ordem, de categorização das coisas. Acho que essa filosofia é a grande contribuição do Iluminismo e do cientificismo iniciado no século XVIII. Porém, sou levado a crer que se trata de uma ilusão parcial. O mundo das ciências naturais, mal resumindo, organiza-se cada vez mais, mas por outro lado me parece que as humanidades (mais especificamente as mentalidades) permaneçam desorientadas, muitas vezes “perdidas no passado”, ou mesmo renegadas, desprezadas e desconhecidas.

O queijo e os vermes, por exemplo, me abriu possibilidades de conexões muito além do que sou capaz de gerenciar. Minha leitura teve a exata extensão de seis dias. Não menos de 40 páginas por dia. Fui sugado para dentro de um universo no qual encontrei algumas relações importantes, mas no geral a maioria delas ainda espera que eu as atinja.

Duas conexões que fiz a partir de O queijo e os vermes me são caras. A primeira é com a idéia de Passado, ou a História em si. Ginzburg me sugeriu uma noção que me persegue desde então e que, tenho certeza, me acompanhará para sempre: a idéia de mundo pré-industrial (ele falou, se não me engano, em Europa pré-industrial, mas eu estou, por conta e risco, aumentando o espectro da definição). Perdi (acho que perdi, tento) o odioso vício de categorização rígida das coisas – como concordar com o início da Idade Média no ano 476: não há senso nisso. Mas penso que o poder de uma periodização pré-industrial nos seja importantíssimo hoje. Isso nos permite captar melhor as distinções e compreender satisfatoriamente o mundo em suas fases bastante extremas (antes e depois da Revolução Industrial). Em poucas palavras, acho que não temos uma compreensão saudável do que era o mundo sobretudo antes desse que conhecemos e ao qual pertencemos. Para nós, modernos, nos parece indisculpável a estreiteza de mentalidade do mundo de apenas quatro séculos atrás. Falamos com arrogância do passado. Me veio, e me vem, à mente Jacques Le Goff. Num artigo que li há apenas algumas horas, ele defende a idéia de tempo longo e tempo curto na História, o que é complicado de explicar, mas significa, em síntese, a diferença de duração de eventos que caracterizam um período e a aceleração da própria História na medida em que eventos distintos em sua natureza passam a se suceder mais freqüentemente. Tempo longo não quer dizer necessariamente ignorância ou estagnação, mas talvez apenas reflita um comportamento conservador das coisas. Não compreendemos isso e daí nossa ojeriza em relação ao passado. Le Goff um dia disse que “somos medievais quando nos vangloriamos de sermos modernos”.

A segunda conexão direta que fiz a partir de O queijo e os vermes foi com alguns artigos que encontrei na internet que fazem uma análise, à luz de algumas ciências humanas, da música de Ian Anderson, “o” Jethro Tull, uma de minhas bandas favoritas e, acho, uma das que tem mais coisas a dizer no mundo artístico. Esses artigos detêm-se em alguns álbuns específicos – os melhores não apenas do ponto de vista artístico musical, mas como idéia. Pode ser que seja superestimado, mas pode ser que não: até hoje se organizam simpósios a fim de discutir as idéias que os álbuns trazem. Songs From the Wood e Heavy Horses (os mais debatidos) encaixam-se no que quero dizer na medida em que falam de um mundo “antigo”, propõem uma interpretação menos hostil das coisas do passado. A faixa-título do segundo disco, por exemplo, faz uma reflexão – e uma homenagem – aos cavalos como força-motriz e a “inutilidade” deles no mundo moderno. É óbvio que não digo com isso que sonho com o dia em que dispensaremos os tratores e retornemos ao arado de tração animal. Faço um raciocínio – ingênuo, pode ser – de que os tratores como exigência talvez seja um argumento discutível. E aí voltamos àquilo que sugeri anteriormente: nós não conseguimos imaginar o mundo pré-industrial e, por isso, temos horror dele e nutrimos assim nossa soberba de modernos.

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