Skip to content

O Passado e o folclore

domingo, abril 19, 2009

Jacques Le Goff, talvez o maior medievalista do mundo, dedicou um artigo – que encontrei em Il meraviglioso e il quotidiano nell’Occidente medievale – sobre a noção de passado (e História) através do folclore. A tradição, conservada através do folclore – mesmo que provavelmente eu esteja utilizando essas nomenclaturas de forma não-exata –, nos dá amostras valiosíssimas do passado. Algumas coisas permanecem vivas somente através do folclore. O episódio abaixo serve, segundo Le Goff, para distinguir “níveis” (ou tipos) de cultura medievais que confrontam a mentalidade cristã e aquela mais antiga, ligada à natureza, portanto pagã. Achei interessante na medida em que, nos textos anteriores, falei en passant sobre a importância do passado pré-industrial e também, mais profundo ainda, sobre o pré-cristão – que é objeto, esse último, de muitas das melhores idéias de Ian Anderson para a música do Jethro Tull. Interessante, acho eu, também na medida em que, em geral, desconhecemos quase completamente a mentalidade do mundo “antigo”, que ficou soterrado pela era industrial.

Na vida de São Germano de Auxerre, […] o biógrafo se desculpa ao contar um milagre que lhe parece, digamos também (ele mesmo o afirma), quase que idiota, mas que ele refere por amor à completeza. Durante uma de suas viagens, São Germano deve passar uma noite numa vila. Pela manhã, se dirigem a ele para pedir que ponha fim a uma calamidade que pesa sobre a vila: os galos não cantam mais, e ao santo se pede que restitua a eles a voz. O santo se serve de grãos, os benze, dá de comer aos galos e, de repente, se erguem tais e tantos cantos a ponto de constranger o próprio santo e todos os presentes a tapar as orelhas. Embaraço do biógrafo: fez bem em contar uma coisa do gênero? Mas o fato é que se o canto do galo vem a faltar na vida tradicional de uma vila, isto não apenas contitui uma perturbação na medição do tempo, mas é também um sinal de que as forças da natureza, as forças da fecundidade não respondem mais. Fazer cantar os galos significa reconciliar a vila com as forças econômicas e com as forças espirituais, com a ordem do mundo. É evidente que o nosso hagiógrafo definitivamente não compreendeu isso.”

Jacques Le Goff, Il meraviglioso e il quotidiano nell’Occidente medievale, 1983, Laterza, pág. 200. Tradução minha.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: