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Menocchio é um herói

domingo, abril 19, 2009

queijo_e_os_vermesO queijo e os vermes entrou para minha lista dourada de leituras imprescindíveis não sei bem quando, nem como. Um dia, em aula, Ungaretti sacudiu no ar um exemplar, edição da Companhia das Letras – mas não recordo exatamente o contexto no qual apresentou o livro. Lembro sim de uma visita de sábado pela manhã à Livraria Cultura (mainstream do lugar sacro que é a livraria, cuja versão “marginal” são os sebos) onde folhei a obra do italiano Carlo Ginzburg pela primeira vez. Li na contracapa: “Um obscuro herege do século XVI é resgatado do esquecimento por Carlo Ginzburg em O queijo e os vermes. A partir daí nasce não uma dissertação acadêmica, mas uma das mais apaixonantes histórias sobre a Inquisição e sobre a cultura popular e erudita da época, através da vida de Menocchio, o moleiro, e sua espantosa cosmogonia: ‘[…] tudo era um caos, isto é, terra, ar, fogo e água juntos; e de todo aquele volume se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos..'”. Eu estava encantado. Basicamente, o título fora o primeiro responsável: O queijo e os vermes. Quê poderia dizer aquilo? O subtítulo era provocador: O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Cotidiano e idéias de um moleiro do século XVI enredado em controvérsias religiosas e filosóficas…

Domenico Scandella (Menocchio) é um herói, ou ao menos meu herói. Representa em primeiro lugar uma noção do passado, com seus méritos e deméritos, lógicas e contradições, triunfos e misérias. Mas há ainda outro motivo, mais complexo e ao mesmo tempo mais retilíneo, que vem a ser o centro da obra: Menocchio desafia o pensamento religioso. É um subversivo das idéias. No que diz respeito à religião, minha identificação com o moleiro do Friuli foi imediata – não na dinâmica, mas na essência. Nasci e cresci numa família fanaticamente católica. Não se trata simplesmente da fé católica ou de um confronto Fé vs. Razão. Qualquer pessoa que se vê cercada de entes queridos aos quais a última coisa se quer no mundo é desapontá-los entende que se dizer “não-religioso” é uma ofensa gravíssima e uma problemática dificilíssima de afrontar. E não é um simples embate entre fé e razão porque Menocchio – e seus inquisidores – usam a razão exemplarmente para explicar aquilo que, talvez, esteja além da razão. Ou que não faça o menor sentido. Já não posso dizer, por exemplo, que creio que Jesus Cristo seja o Filho de Deus, mesmo que as conseqüências disso (de ser ou não ser) sejam do meu interesse.

Menocchio orgulha-se, com razão, dos pensamentos que saíram de sua “própria cabeça”. Os pensamentos do moleiro (o que coloca ele numa espécie de “classe média”) e suas idéias são o ponto principal do livro e aí temos já dois grandes problemas: o primeiro é que Menocchio pensa por si só; o segundo que ele reflete sobre o que não deve ser refletido. Muda o tema, mas para mim o paralelismo é inevitável. Sai a religião – a “grande derrotada” do mundo moderno –, mas entra em cena um amplíssimo espectro de outros temas, igualmente “proibidos”. “Inventamos” novas religiões, assuntos herméticos ou aos quais não cabe contradição.

O livro provocou disparos violentos em minha mente – e isso voltou a ocorrer agora, quando o comento. É difícil, ao menos para mim, simplesmente comentar a obra. Ela versa sobre religião, História, Passado (o mundo pré-industrial), filosofia… Propõe, mais que a religião como ponto central, uma discussão sobre mentalidades. Menocchio é inteligente e carismático, verdadeiro e sincero em seus raciocínios e temores até a raiz do cabelo. Talvez o mais saudável e útil para quem se interessou seja, ainda na livraria e sem haver pago pelo livro, a leitura do posfácio, cinco páginas assinada por Renato Janine Ribeiro. É dele também a orelha do livro, um pequeno texto interessantíssimo. Talvez naquelas poucas linhas se desperte um interesse maior do que eu fui capaz de originar falando de forma demasiadamente (como sempre) prolixa.

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