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Do mestre, com carinho – parte II

quinta-feira, março 26, 2009

ANOTAÇÕES PARA UMA AULA SUBVERSIVA

ANOTAÇÃO IV – Na atualidade, sem as intimidações diretas e indiretas dos agentes da ditadura; com a consolidação das assessorias de imprensa e a formação controlada dos cursinhos de “comunicologia”; além, é claro, dos respectivos cursos em que as empresas selecionam “focas” para adestramento, eficiente instrumento de recrutamento dos confiáveis ideologicamente, a produção de imagens está no centro da imposição de bens simbólicos, reacionários e criminalizadores. O diploma não está ameaçado. Bem ao contrário, o fortalecimento da obrigatoriedade significa o fortalecimento do showrnalismo. Da prática da perfumaria. Os interesses estão sincronizados.

ANOTAÇÃO V – No cotidiano, relações de alta complexidade e competitividade consolidam uma cadeia de conivências. As imagens fotográficas, produzidas a partir do “olhar isento” das assessorias “complementam” matérias produzidas a partir de informações de press releases, tituladas por editores, todos de confiança e treinados na introjeção dos interesses das respectivas unidades de produção da indústria pesada da comunicação de massa, para a qual todos vendem suas forças  “criativas” de trabalho. Nada críticas. E showtógrafos, quando pautados, são instrumentos conscientes da “hipocrisia fotográfica”.  Ou ainda: abatidos e apáticos, produzem o material já dentro das normas. O editor “filtra os delizes” em último caso. O modelo ideal de profissional, já revelado abertamente pela “Folha de São Paulo”, é o denominado jornalista multimídia. Confiável ideologicamente, capaz de alimentar todos os suportes (jornal, rádio, tv, internet), domínio de todos os instrumentos tecnológicos de comunicação, falando no mínimo uma ou duas línguas estrangeiras, limpos e assépticos. Produtores, em verdade, de secos e molhados. O Rodrigo Lopes, de Zerolândia, é um “vencedor”. É cada vez menor o lugar para gente tosca. Os subversivos já foram eliminados; alguns poucos sobrevivem nas redações por um descuido qualquer do sistema. Estão clandestinos. E, com razão, amedrontados. JORNALISMO é subversão.

ANOTAÇÃO VI – Repetitivamente não posso deixar de assinalar que temos a exata noção do o quanto é complexa toda esta questão. Assim como, mais uma vez, registramos que não temos a pretensão – e muito menos ainda a arrogância – de acharmos que temos toda a verdade. Reivindicamos, apenas, uma parte dela. Este não é um suporte (internet/blog) muito adequado a um longo texto. Ainda mais com fundo preto e letras vermelhas [do layout original do blog Ponto de Vista]. Temos, por isso mesmo, a noção de que muitas palavras, idéias e raciocínios estão aqui “jogados”  a partir de pressupostos. Conceitos possuem uma história, uma determinada trajetória de incorporação de outros conceitos.

ANOTAÇÃO VII – Ainda assim, a partir de todas estas considerações, precisamos assinalar que como jornalista (da velha geração) e professor temos o péssimo hábito de pensar. Arriscamos. Esta prática fica sempre associada a uma determinada forma, a de pensar criticamente. É evidente que – e não poderia ser de outra forma – muitas de nossas avaliações poderão estar equivocadas. Mas são resultantes deste pensar criticamente, de forma absolutamente honesta. Nenhuma de nossas considerações estão orientadas pela ganância, inveja ou por algum tipo de ressentimento de caráter pessoal. Sou um privilegiado. Não estou submetido à tortura que deve ser (para quem tem caráter) vender a força de trabalho à mídia corporativa. A selva capitalista conta com a necessidade de sobrevivência de todos nós. Por um descuido do sistema ingressei na academia. E tenho diante de mim jovens e, para alguns deles, em número cada vez menor com o passar dos anos, ainda faz sentido o que digo em sala de aula. A estes tenho doado minha alma. Com modéstia estou construindo uma história como educador. Os cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado), formadores dos professores que, por sua vez, irão formar os futuros jornalistas pertecem a esta esfera de conivências. Não por acaso, com raríssimas excessões, os alunos que ingressam são aqueles dos quais não tive uma boa impressão na graduação. Quase sempre legimatores de professores especializados no adestramento da covardia. O ensino do nosso país é uma tragédia.

Do blog Ponto de Vista, do mestre e amigo Wladymir Ungaretti.

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