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Saudade: churrasco e chimarrão

domingo, março 15, 2009

Nada a ver com o bairrismo muito nosso, gaúcho: dessa forma de encarar a identidade regional já me desvencilhei há tempos. Tem relação apenas com o prazer e a satisfação, mesmo sendo, evidentemente, veículo de identidade cultural. Beber chimarrão não se explica exceto pelo fato de ser uma espécie de “RG etnológico”, além de, simplesmente, tratar-se de uma excelente bebida. O churrasco, como alimento, é de compreensão mais universal, mas causaria um tremendo efeito se eu, porventura, aqui em Padova, fincasse quantidades militares de carne em um espeto e as assasse em um quadrado de tijolos em algum parque (tudo parece excessivamente normal enquanto restrito ao próprio contexto). Tudo isso ganha contornos dramáticos quando penso que, muitíssimo provavelmente, deixei para trás o maior assador que o Rio Grande do Sul conheceu nos últimos 30 anos: meu pai. O culto do chimarrão obedece a um cerimonial mais “religioso” do que o do churrasco, penso eu. A conversa é imprescindível – jamais tive notícia de uma roda de chimarrão satisfeita em que todos mantinham o silêncio. Ao mesmo tempo, jamais se viu uma roda demasiadamente animada, à parte algumas “tribos” cultuadoras de músculos e de pit-bulls que povoam o Parcão aos domingos e que, misteriosamente, conseguem beber chimarrão sem água (!). Normalmente (o que não quer dizer que seja a única forma, ou a forma “correta”), o momento do chimarrão é caracterizado por uma estranha tranqüilidade e interação.

Estou para receber uma encomeda especial from RS: uma bomba e cuia para meu chimarrão no exílio. A erva-mate, provavelmente, encontrarei somente em Milão e já um tanto sem graça. Faltará os amigos, minha avó, meu pai, minha mãe e tios, as conversas sobre as falcatruas da RBS, o Gauchão e o que o universo contém. Mas já é melhor que nada. O churrasco ainda terá que esperar alguma idéia menos extravagante e um bom emprego. A carne aqui custa os olhos da cara.

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  1. julianobruni permalink*
    domingo, março 15, 2009 19:39

    Sem comentários: notei desconcertado que, após a migração feita do Blogspot para WordPress, Cantofabule não conta quase nenhum comentário. Foram suprimidos na conversão para o novo endereço. Evidentemente alguém lê – e comenta –, apesar de atualmente eu não contar mais com minhas duas dezenas de leitores e participantes. As pessoas menosprezam o poder de influência que suas opiniões têm nas outras. Mas penso também que se trata de um problema moderno: por uma questão de indoutrinamento oculto que impele à individualização e ao isolamento, cada vez menos pessoas têm opinião e as que têm não consideram importante dividí-la. Uma pena, porque muitas vezes um comentário é infinitamente mais interessante que o post em si, o que por sua vez pode originar uma troca de idéias ainda mais relevante que o texto. O que causou o quase total vazio em Cantofabule foi um inoportuníssimo problema técnico e caso alguém se disponha a expôr sua opinião ou pensamento em voz alta verá suas palavras devidamente publicadas aqui.

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