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Não se pode sair da superfície

quinta-feira, março 5, 2009

Foi Adam Smith, quem diria, que um dia disse que, assim como a ciência básica, “a arte é incompatível com o lucro privado”. No mínimo irônico, mas creio que o pobre Smith se revire no túmulo com coisas que são ditas, e feitas, em seu nome – bem como outro filósofo, tão caluniado quanto, Karl Marx. O escocês, a meu ver, estava absolutamente correto, e não apenas em relação à arte. O parecer dele é quase científico, já minha opinião é apenas uma opinião. Mas poderia adquirir ares de tratado cartesiano se nos dispuséssemos a confrontar a verdade, entrando em uma loja de discos e apontando o que é “arte” e o que não é. Arte é um conceito, por vezes e sob determinados aspectos, muito subjetivo. Mas é bem palpável. Sabemos exatamente o que é arte sem sabermos definí-la. Parênteses: eu estou pensando especificamente em música, mas isso diz respeito a todas as manifestações artísticas.

O segredo, na minha opinião, da definição “laica” da arte é simples: é tudo aquilo que não está na superfície, mas acima dela. Num encerramento de Sala de Redação, há não muito tempo, o Professor Ruy Carlos Ostermann, provocado e indignado, me ajudou a resumir um sentimento meu, e por isso faço uso das palavras dele. “Não se pode sair da superfície. Se se ousa elevar um pouquinho o nível, tu já podes ser acusado de arrogante, elitista e outras coisas que o valham…”. Tudo está aí, nessas duas frases, a meu ver. Qualquer coisa, qualquer tema, da composição de uma canção à forma de temperar uma salada, deve ficar no comum, no chão. Deve ser “humilde”. Não se trata (apenas) de tornar a coisa “acessível”, que é um eufemismo, legível, compreensível a “todos”. Não: é um posicionamento que muito tem a ver com nossa sociedade atual. Primeiro, tudo que é planificado tende a ser melhor assimilado pelo maior número de pessoas, e isso se relaciona, também no caso da arte, com a geração de (quem diria) lucro. Segundo, a “humildade” visa evitar a todo o custo a inveja (e a indiferença) numa sociedade extremamente competitiva. Parece contraditório, mas não é. Se reduz o nível para ser competitivo na medida em que o nível reduzido tem um alcance muito maior.

Volto à musica. Tenho filosofado bastante em frente à televisão assistindo a um programa chamado X Factor, um concurso musical em que candidatos se confrontam em performances musicais até que o vencedor seja agraciado com um contrato de 300 mil euros. O escopo é “descobrir” um novo popstar. O júri, que também são os treinadores das equipes, é formado pela proprietária em pessoa do selo musical que oferece o prêmio, uma hostess televisiva e um, quem diria, músico. Ali, com todas as implicações que tem um programa televisivo, fica evidente a incompatibilidade da qual falava Adam. O objetivo, vejam bem, é obter um novo popstar, e não um músico, um artista. Se recorre então ao protocolo básico: nada de personalidade saliente, gosto musical apurado, idéias próprias. Uma “violência artística” – não que só tenhamos artistas ali, mas o perseguimento da arte deveria começar pela liberdade, no mínimo.

Sei que este é um texto confuso. Tentei escrevê-lo e reescrevê-lo em bases diferentes, em momentos diferentes, e ele tem sido postergado há pelo menos alguns meses. O fato é que cansei. De tentar explicar e de tentar entender. A música sofre muito com uma simplificação e pobreza de espírito que provém da busca pelo lucro e da pura e simples limitação humana. Desses dois grandes problemas, nem precisaria dizer, o mais nocivo é o primeiro. Quem não tem talento desiste por si só, na maioria das vezes. Mas o sistema mostrou às pessoas que é possível – mais que isso, é uma grande coisa – não haver talento ou sensibilidade artística nenhuma. Isso só atrapalha…

Um P.S. Importante, ainda que desnecessário: quando falo em arte – sobretudo a musical, mas também a literária, que são as que mais me interessam – não penso apenas em Beethoven e Shakespeare. A arte, mesmo difícil de explicar, é fácil de perceber. Há “algo”, o tal “fator x” até mesmo em Sex Pistols e J. R. R. Tolkien.

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