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Meus ídolos — cap. II

quarta-feira, julho 16, 2008

Gregório de Tours (538-594) viveu talvez o tempo mais nervoso e transitório da História do Ocidente, testemunhando a invasão do Império Romano e o estabelecimento dos Reinos Bárbaros. Era de origem galo-romana, pertencia à nobreza eclesiástica da Gália (foi bispo de Tours) e passou à posteridade como historiador de um período onde fontes documentais são raríssimas, o que o torna quase um herói entre seus pares de ofício. Ainda que tenha escrito num latim decadente e nada elegante, Gregório captou as transformações do mundo e preencheu seus textos com os novos termos vindos dos invasores. Sua atenção recaiu sobre os francos e conquistou fama pela obra Decem Libri Historiarum (Dez Livros de História) — posteriormente rebatizado por historiadores modernos como Historia Francorum (História dos Francos) —, na qual faz uma controversa narrativa do início dos tempos até sua contemporaneidade, ou seja, fins do século VI, sendo que o grande mérito, não há dúvida, é o relato do que presenciou em vida. Gregório de Tours sintetiza sua motivação em escrever em tempos tão difíceis, após lamentar a decadência que o rodeia:

“(…) Mas não se via um só homem versado em dialética capaz de verter tudo isso em prosa ou verso. A maioria amiúde gemia, dizendo: ‘Infeliz é o nosso tempo, porque o estudo das letras desapareceu entre nós, e não se encontra pessoa no mundo capaz de fazer conhecer, por seus escritos, os acontecimentos de nossos dias!’. Considerando este e outros lamentos semelhantes que se repetiam constantemente, e desejoso de conservar a memória das coisas passadas a fim de qu o conhecimento fosse transmitido à posteridade, não pude deixar de registrar, no meu estilo inculto, as artimanhas dos falsos e a vida dos bons, seduzido sobretudo por esta palavra encorajadora que tanto me impressionou quando a escutei: ‘Bem poucos compreendem o discurso de um reitor, mas muitos entendem as palavras de um rústico’.”

Me agrada a idéia de registrar para a posteridade qualquer coisa relevante, uma motivação de jornalista/historiador que cultivo quase que por necessidade. Mas me agrada ainda mais eternizar as artimanhas dos falsos e a vida dos bons.

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