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Jornalismo é um permanente estado de espírito

segunda-feira, abril 7, 2008

Sempre vivi um conflito interno ferrenho e angustiante, mental e animicamente destruidor. Como qualquer pessoa, tenho meus gostos e prazeres, muitos deles transformados em paixões desesperadoras, como o que nutro pelo futebol, pela música, pela literatura. Daí meu dilema existencial: desde sempre fui jornalista. Acredito piamente na máxima de que “jornalista não aprende, nasce sabendo” — a fazer jornalismo, importante explicar, e não em relação a qualquer assunto da existência, como muito gostam de acusar, desinformados e preconceituosos. A questão está no que é ser jornalista, sobretudo no mundo de hoje, desigual ao extremo e onde qualquer abstenção faz toda a diferença. Meu sonho infantil comportava estádios lotados, cabines de imprensa e viagens ao redor do globo, entrevistas com os ídolos, conhecimentos absurdos sobre o maior esporte da Humanidade, interesse permanente de grande parte do planeta. Acrescentei depois alguns ajustes, alargando o campo para outras artes, mas foi no exato instante em que tomei noção do sentido maior de fazer jornalismo que a dúvida se instalou por completo em minha alma. Porque a base do ofício jornalístico é recolher, tratar, pensar e espalhar informação (donde vem a opinião — responsável —, também incluída nas atribuições). Como tudo deve estar no seu contexto, qual o sentido de passar uma vida inteira a distribuir informações de relativa importância, mesmo que seja exatamente o que “o público” gostaria de receber? Falo do futebol, meu ponto de partida infantil, amor que determinou minha profissão. Depois descobri meu amor pelo jornalismo em si, como entidade abstrata, e daí os caminhos se bifurcam, de forma que chego agora, com meros 26 anos, a aquilo que pensei impossível e que se materializa: o que raios eu devo fazer? A questão não se resume a futebol ou qualquer outra pauta específica, se define na própria universalidade que é o jornalismo. Dia e noite a frase de John Reed ecoa pela minha cabeça, já um tanto transtornada: “Descobri que só me sinto feliz ao trabalhar intensamente em algo que gosto”. O mal do jornalista, do real jornalista, é gostar de muitas coisas, amar tanto uma diversidade de assuntos e temas que a infelicidade lhe cai sobre o espírito quando vira-se para cuidar de um e, assim, dá as costas ao outro.

Fujo do ponto principal deste texto (fato corriqueiro): nós, jornalistas, temos uma responsabilidade, tanto maior quanto maior são os dependentes de nosso trabalho em comparação a outras profissões, e quando deixamos de cumpri-la, em grande ou pequena escala, nos distanciamos do ideal do ofício. Não que divulgar os placares do final de semana não seja importante em determinadas condições, mas o contexto conta muito e, no nosso, ocupar-se apenas disso pode ser um “desvio” de foco, uma diminuição da “importância” do que se faz. Pode ser, não sei bem. Já muito pouco sei, aliás. Sei apenas que amo meu ofício, mais que o tema que motiva a sua existência. Não seria jogador de futebol: seria jornalista esportivo. Não seria músico: seria crítico musical. Não me daria por satisfeito ao escrever ficção: rechearia meu texto, factual, da riqueza literária. E assim ad infinitum.

A despeito dos problemas, dos meus e de tantos outros, hoje é o Dia do Jornalista. Aceito humildemente as congratulações de quem lembrar disso hoje, pensando em mim, na Veri, ou qualquer outro de nossos “colegas”, maus e bons. Não há nada de muito relevo a comemorar, mas gostaria apenas de registrar, mesmo que em forma de lamento, meu amor por esse “estado de espírito” que é ser jornalista. A angústia só existe porque tenho a certeza absoluta de que fazer jornalismo é o que quero, o que eu preciso. Gosto de repetir que o maior elogio que já recebi em minha vida não disse respeito a qualquer outra condição cultural (gremista, esquerdista, educado, etc), mas sim enquanto a “profissão” que me escolheu: “tem o jornalismo nas plaquetas”. E fico feliz.

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