Skip to content

Metáfora do mundo

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

De outra magnífica leitura, a qual me parece um dos melhores trabalhos sobre futebol feito em nosso país, destaco a seguinte observação:

“Assistiu-se, então, à chegada ao governo de um sindicalista acompanhado por ex-militantes da luta armada, ex-exilados, ex-opositores da ditadura, grupos evangélicos e conservadores. Coerente com essa miscelânea incoerente, em pouco tempo de governo o Ministério dos Esportes, dirigido pelo PC do B, aproximou-se da CBF de Ricardo Teixeira e dos tradicionais dirigentes de federações e de clubes do país. Mais que uma característica do processo político, o centrismo invertebrado parece uma espécie de maldição da sociedade brasileira.”

O livro chama-se A Dança dos Deuses — Futebol, Sociedade, Cultura (editora Companhia das Letras, 2007), do medievalista Hilário Franco Júnior, um dos mais competentes historiadores do Brasil e discípulo fiel e dedicado de Jacques Le Goff. A bem da verdade, o trecho assinalado soa estranho à boa parte do livro, normalmente centrado na exposição dos fatos políticos, sociológicos e futebolísticos, o que Franco Júnior faz com uma competência e clareza ímpares. No encerramento da primeira parte, de onde retirei esse excerto, o historiador permite um raciocínio mais solto, permeado de opinião, ainda que de forma sutil. Nenhum problema, quero ressaltar. Pelo contrário: expõe, na verdade, uma conclusão familiar a todos os que pensam seriamente o futebol brasileiro, em todas as instâncias. O resultado é uma crítica ao comportamento geral dos políticos em relação à administração de um dos maiores patrimônios do Brasil e até mesmo à percepção do povo em relação tanto à sua classe política quanto aos ídolos do futebol. O último parágrafo da primeira parte, dedicado à História propriamente dita, é o ápice de seu pensamento:

“A verdade é que tanto o cidadão quanto o torcedor brasileiro […] têm tendência a depositar suas expectativas (e quando frustrado suas críticas) em individualidades, não em coletividades. A esperança estava em Lula, não em um programa de governo, nos Ronaldos ou no “quadrado mágico”, não em um time. Espera-se sucesso de gestos isolados, não de esforço contínuo e planejado. Seja na política ou no futebol, a sociedade brasileira continua esperando um Messias que resolva suas dificuldades.”

A Dança dos Deuses (ao menos suas primeiras 160 páginas) mostra-se um tanto retraído pela linguagem e articulação de raciocínio de um estudioso para o qual a linguagem influi no objeto da pesquisa. Todo o cuidado, no entanto, e mesmo o costume do texto mais “duro”, digamos, não tira o brilho da exposição e a astúcia do pensamento. Vejo este livro como uma das obras fundamentais e mais completas sobre futebol já escritas. É, em síntese, o olhar que eu tanto esperava sobre o futebol que, já longe de ser um mero entretenimento ou ocupação física, tornou-se cultura ou, como diz o próprio autor, metáfora do mundo. Desejo voltar a comentar esta obra, o que farei em breve.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: