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O Jornalismo está morrendo

sábado, agosto 25, 2007

Morreu Joel Silveira e até comentou-se bastante seu trabalho e a contribuição decisiva que deu ao Jornalismo brasileiro, revestindo-o de um certo charme literário da mesma veia de Hemingway, Truman Capote, Gay Talese e Tom Wolf. No entanto, fiquei com a séria impressão de ter sido dispensado, mais uma vez, a contextualização. Não que esteja aqui querendo diminuir a qualidade do texto de Joel Silveira. Pelo contrário: trata-se de reconhecer seus méritos, pode-se falar até em genialidade, na medida em que fez aquilo que ninguém havia feito. Tudo, porém, dentro do contexto, como não poderia deixar de ser. Bem verdade também que li apenas as mais importantes e célebres produções de Joel — A 1002ª Noite da Avenida Paulista e outra meia-dúzia de matérias —, mas já ali puder perceber frações daquilo que tanto me atrai no Jornalismo: sua capacidade de dar relevo aos acontecimentos, projetar-lhes sentimentos, embelezar e fazer uso habilidoso da linguagem (seja ela qual for), olhar a todos os lados, atribuir erudição, redigir sentenças lindas em sua simplicidade, aplicar a lógica cartesiana e deixar-se levar pelo lirismo, por vezes. Outras tantas coisas, inesgotável que é a beleza deste ofício. Mas Joel Silveira escreveu nos tempos áureos da profissão, que há muito ficou para trás, e este é o meu ponto. Faço uma espécie de auto-indulgência, mas a causa primordial de meu desânimo são as cinzas, visíveis por toda a parte, a que foi reduzido o Jornalismo, exigências de um comprometimento imposto pelas tiragens e pela publicidade, amparado no comodismo e emburrecimento progressivo. A arte de escrever, trazendo para a atualidade aquilo que os grandes jornalistas praticaram, perde-se nos modernos leads, “resumos da notícia”, e todo o espectro da produção de bem simbólico que é fazer Jornalismo, agora muito mais meros boletins guiados pelas Relações Públicas e Publicidade, evidentes mecanismos do poder. Restrinjo tudo, momentaneamente, à qualidade daquilo que se lê, mas é óbvia a interferência na própria forma de se encarar o ofício. Não por acaso as faculdades incrementam a parte técnica e ensinam como portar-se frente às câmeras, segurar o microfone ou ler o teleprompter. O Jornalismo, menos pela forma e mais pelo seu significado, morre um pouco com Joel Silveira, e eu entendo, cada vez melhor, por que a profissão à qual devoto tanto amor recusa-me, assim como insistentemente recusa tantos outros, muito melhores até.

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