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Futebol mercantilizado

segunda-feira, agosto 13, 2007

Triste sinal dos tempos esse em que tudo, absolutamente tudo, é confundido com lucro. Ou meras oportunidades de lucros, desprezando-se o contexto. No caso específico, penso sobre a insatisfação crescente e já estridente que assola a Inglaterra por conta da nova moda: estrangeiros endinheirados à frente de clubes tradicionais em busca de mais dinheiro. Notem que não faço do fato de serem estrangeiros o foco do problema, certo de que pode haver identificação entre o Fulham de Londres e um rico egípcio radicado, assim como há entre mim e o Manchester United e a Juventus. A questão central, evidentemente, é a ganância às custas de algo precioso e maior: o amor e, não seria exagero, a identidade que uma agremiação, a maioria já bem passada dos cem anos, confere àqueles que a veneram. Fico sabendo que dos 20 clubes ingleses da Premier League, 9 são propriedade de magnatas de fora da ilha, gente que fareja dinheiro conforme o vento sopra e vêm de terras tão insípidas para o futebol como a Tailândia ou os EUA. Já há uma década a Inglaterra parou para pensar seu futebol e transformou o antes lamacento e desinteressante football num dos maiores espetáculos do planeta. Mas ainda parece não ter se dado conta do perigo que sua veia capitalista, aberta a tudo e a todos, inflingiu a seu próprio objeto de devoção. Parece também que dos clubes manipulados em busca de dinheiro apenas o Manchester United conseguiu mobilização popular para a contestação de forma aberta e franca, minimamente ciente. Malcom Glazer, americano e rico por profissão, é severamente hostilizado. A lógica é a mesma que veríamos aplicada em “consumidores”, compradores de sabonetes com ‘hidratantes especiais para o corpo’ ou carros ‘mais econômicos’: uma última temporada de maravilhas e triunfos, a torcida extasiada, mas já agora, volta das férias, ingressos 60% mais caros. Das restrições, a menor seria limitar a posse por nacionalidade, o que tem seus prós e contras, verdades e mentiras. Mas o velho equívoco persiste, implacável: o de que tudo é comprável, manipulável e descartável, obecendo à única impulsão de se obter mais e mais dinheiro. Menor, enfim, que seu próprio valor, digamos, psicológico ou sentimental. Mesmo o futebol sofre com isso e daí, penso eu a princípio sozinho, chegamos definitivamente ao fundo do poço.

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