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Hérnandez

sexta-feira, junho 8, 2007

Hérnandez tinha 10 anos. Brincava entre as casas humildes da humilde Nicarágua. Meninos como ele corriam para lá e para cá, ajudavam os mais velhos, trabalhavam com os pais nos intervalos das brincadeiras. Hérnandez tinha o sangue índio correndo em suas veias. Sangue desprezado pelos brancos que chegaram há pouco e foram dando ordens, escravizando, estuprando. Matando.

Hérnandez tinha paixão por automóveis. Vira pouquíssimos circulando por sua vila, mas os amava. Projetava toscos carros em madeira e latão, para brincar com os pequenos vizinhos e amigos. Guiava velozes máquinas por entre os vales de sua imaginação e chegava até a Cidade Sagrada de seus ancestrais, muito longe, inatingível pelos pés humanos. O menino viajava a distância infinita e invencível em seu carro alado e lá reencontrava os avós e os entes mais queridos que já haviam chegado ao destino.

Hérnandez nunca vira seu próprio rosto. Um dia, um homem alto e de longos cabelos amarelos apareceu sorrindo e pediu que sorrisse. O barulho assustou o menino, que teve ímpetos de sair correndo. O homem pediu que esperasse e lhe estendeu a mão, na mão um papel, no papel a imagem: Hérnandez. Outro sorriso, desta vez sincero.

Hérnandez foi encontrado debaixo de algumas palmeiras que cobriam sua casa, o corpo franzino imóvel e sem a alegria de antes. A pequena foto ao lado, sorridente e sem cor, velava nossa criança. O jovem índio não pudera ao menos lutar: um risco de balas lhe crivara o peito. A guerra trazida pelo mercado chegara, punição horrenda e extrema para quem se recusava a dançar a música que o capitalismo toca. Creio que Hérnandez sequer tenha ouvido falar nisso. A Nicarágua consumiu energia dos vencedores. Os vencedores engoliram vidas nicaragüenses e finalmente, tão somente então, a Shell pode vender combustível para os humildes automóveis da Nicarágua.

Hérnandez agora viaja, em alta velocidade, rumo à Cidade Sagrada, e tem o consolo de ser o piloto mais hábil do céu tropical.

OBS.: Aqueles que já leram este texto, publicado inicialmente no What Are You?, hão de desculpar o déja vu. Mas trata-se de rara produção da qual consigo me orgulhar.

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