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Modus operandi — parte 1

segunda-feira, junho 4, 2007

Parte da explicação sobre o que acontece na imprensa — relacionado à Venezuela de Chávez, por exemplo, bem como quase a totalidade da cobertura jornalística — encontra-se num pequeno livro, disponível por R$ 12 e de poucas dezenas de páginas. Diria que se trata de leitura recomendável (e quase necessária) a todos, jornalistas ou não. A bem da verdade, quem tem a produção de notícias, a contextualização e o debate de idéias como profissão já conhece o que é relatado nesta obra, faz parte do metier, é uma ferramenta dele. Perseu Abramo, jornalista de opinião e, acima de tudo, respeito à dignidade do próprio ofício, estabelece quatro grandes padrões de manipulação usados de forma sistemática pela grande imprensa — responsável pela formação da opinião de 95%, ou mais, dos “consumidores de informações”. Destaco aqui o padrão de ocultação que, arrisco uma avaliação, talvez seja o mais arrogante e freqüente dos quatro, útil para a compreensão do que, incompetentemente, tentei sugerir no texto anterior. Completam a lista os padrões de inversão, indução e fragmentação. Posso, dependendo de interesse, reproduzir no futuro trechos significativamente esclarecedores sobre os padrões restantes.

“(Ocultação) É o padrão que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, da programação da matéria particular daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta. A ocultação do real está intimamente ligada àquilo que freqüentemente se chama de fato jornalístico. A concepção predominante — mesmo quando não explícita — entre empresários e empregados de órgãos de comunicação sobre o tema é a de que existem fatos jornalísticos e fatos não-jornalísticos e que, portanto, à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar de lado os não-jornalísticos. Evidentemente, essa concepção acaba por funcionar, na prática, como uma racionalização a posteriori do padrão de ocultação na manipulação do real. Ora, o mundo real não se divide em fatos jornalísticos e não-jornalísticos, pela primária razão de que as características jornalísticas, quaisquer que elas sejam, não residem no objeto de observação, e sim no sujeito observador e na relação que este estabelece com aquele. O “jornalístico” não é uma característica intrínseca do real em si, mas da relação que o jornalista, ou melhor, do órgão do jornalismo, a imprensa, decide estabelecer com a realidade. Nesse sentido, todos os fatos, toda a realidade pode ser jornalística, e o que vai tornar jornalístico um fato independe das suas características reais intrínsecas, mas depende, sim, das características do órgão de imprensa, da sua visão de mundo, da sua linha editorial, do seu projeto, enfim, como se diz hoje. Por isso o padrão de ocultação é decisivo e definitivo na manipulação da realidade: tomada a decisão de que um fato não é jornalístico, não há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência por meio da imprensa. O fato real foi eliminado da realidade, ele não existe. O fato real ausente deixa de ser real para se tornar, se transformar em imaginário. E o fato presente na produção jornalística, real ou ficcional, passa tomar o lugar do fato real e a compor, assim, uma realidade diferente da real, artificial criada pela imprensa.”

[Padrões de manipulação na grande imprensa, ensaio de Perseu Abramo, Fundação Perseu Abramo, 2003]

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