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Scusi, non ci credo

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Uma crise política culminou com a renúncia do primeiro-ministro italiano Romano Prodi, ontem. Foram apenas dez meses no mais alto cargo da República, após uma vitória esfuziante contra o magnata Silvio Berlusconi. Prodi lidera a união de centro-esquerda, o que, por si só, já explica a causa da derrocada. Nos serve de exemplo o PMDB, “confusão ideológica” oriunda do engajamento anti-ditadura, que ainda hoje abriga posições tão distintas quanto a água do vinho, ou yin e yang. Acaba não sendo nada. Ou sim, uma massaroca, parceira enamorada, na maioria das vezes, das gosmas direitistas que assolam nosso Congresso e, muitas vezes, dos muitos esquerdistas quadrados e verborrágicos que também transitam por lá.

O primeiro-ministro, que nada tem com isso, queria a aprovação pelo Senado de sua política externa — manutenção das tropas italianas no Afeganistão (quase 2 mil soldados) e autorização para a ampliação da base americana em Vicenza. Prometeu que, caso não conseguisse o aval da casa, pediria o chapéu e iria embora. Precisava de 160 votos, obteve 158. Parece que foi derrubado pelos comunistas, que tiraram votos do governo. Prodi, na noite de quarta, reuniu seus ministros e entregou carta de demissão ao presidente Giorgio Napolitano. Cumpriu a palavra e a Itália entrou em alvoroço.

Parece linear, claro e cristalino, mas tudo em verdade é confuso. O que movia Prodi ao defender uma política de amplo favorecimento aos interesses norte-americanos? Não faço a mínima idéia. A história de Prodi é exemplar no “lado esquerdo da força”, ao mesmo tempo em que a opinião pública italiana foi quase unânime em reprovar a ampliação da base de Vicenza. O governo sabia disso. Paralelamente, não há como condenar o posicionamento dos comunistas, que rejeitaram as novas propostas — em total acordo com suas convicções, essas sim bastante evidentes. Agora, a nova “esquerda aloprada”, podemos dizer assim, abre espaço para Berlusconi e seus asseclas, e nada pode ser pior. A direita quer eleições, a esquerda pede a constituição de um novo governo (conciliador) e o centro, como bem cabe a quem nada tem a acrescentar, fica esperando quem vence para prestar homenagem.

São mistérios como esse que decepcionam e, sobretudo, me fazem perder a esperança em qualquer atividade política, mesmo que bem regida. Claro, é o menos pior que conseguimos fazer. E, por isso mesmo, triste ao extremo. Fico pensando no que diria Machiavel, que, a despeito de pregar certa “frieza administrativa”, orientava sempre guiado para o bem público. Ou, falando em outras palavras, ensinava a nunca, jamais, deixar o povo na mão.

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5 Comentários leave one →
  1. Veri permalink
    sábado, fevereiro 24, 2007 15:27

    Talvez essa forma de governo seja coisa do milênio passado, mas não o governo.

    Se largarmos o povo de mão (como sempre vem ocorrendo no Brasil há séculos), daqui a pouco não poderemos mais sair de casa.

    Beijos

  2. Veri permalink
    sábado, fevereiro 24, 2007 15:24

    Napolitano vai mandar Prodi pro Parlamento, para pedir voto de confiança.

    A votação será nesta semana, quarta ou quinta.

    Torçamos!!!

  3. Juliano permalink
    sexta-feira, fevereiro 23, 2007 3:01

    Eduardo, se não tem governo, tem o quê, exatamente? Queria ouvir a tua opinião.

  4. edu delamare permalink
    sexta-feira, fevereiro 23, 2007 2:54

    Governo eh coisa do milenio passado. Quanto mais governo (e governantes), pior.

    Nao eh “deixar o povo na mao”, mas largar o povo de mao.

    Politica eh so last week.

  5. Juliano permalink
    quinta-feira, fevereiro 22, 2007 22:35

    Emendo a meu texto, um tanto confuso, o esclarecedor comentário de Mino Carta, publicado em seu blog neste final de tarde. Aí está tudo acerca da questão, com os pingos devidamente sobre os is. Publico na íntegra.

    PRODI E A CARTA DE DEMISSÃO

    Nove meses depois da posse, o governo italiano de centro-esquerda caiu. No passado mais ou menos remoto, quedas em prazo curto eram freqüentes. Há tempo já não eram. O primeiro-ministro Romano Prodi entregou a carta de demissão ao presidente da República, Giorgio Napolitano, a quem cabe convocar consultações, como reza a terminologia política na Itália, com todas as lideranças políticas do país. Ao cabo, escolherá o sucessor. O qual poderia ser o próprio Prodi.

    Razão da queda: a política exterior. O chanceler e vice-premier Massimo D’Alema, na manhã de quarta 21, fez uma longa e precisa exposição sobre os rumos da política exterior. Foi um discurso que, sem renegar as alianças tradicionais, a começar pelos Estados Unidos e, obviamente, com a União Européia, confirmou uma linha de firme independência e acentuou as diferenças com a orientação adotada pelo governo Berlusconi.
    Terminada a alocução, os senadores votaram um documento, chamado moção, para explicitar se aprovam, ou não, a política do governo, que perdeu por dois votos: 158 a favor, 136 contra, 26 abstenções. Votos fatais, os de dois senadores da chamada esquerda radical. Entendem que as diferenças em relação a Berlusconi são mínimas.

    A rigor, segundo a Constituição, Prodi não era obrigado a se demitir, pois não estava em jogo a confiança, termo usado para definir o extremo desafio de um governo em busca da total aprovação parlamentar. A questão, no entanto, é capital, e D’Alema avisara um dia antes que o governo sairia de cena se não houvesse aprovação.

    A partir deste momento, o presidente Napolitano pode tomar uma das seis saídas seguintes. 1) Incumbir Prodi de pedir a confiança da Câmara dos Deputados. 2) Entregar de Prodi novo mandato. 3) Investir outro político da coligação de centro-esquerda. 4) Entregar o mandato a uma personalidade institucional, para um governo de transição, destinado a elaborar, entre outras, uma nova lei eleitoral, premissa da convocação do pleito antecipado. 5) Dissolver o Senado para convocar novas eleições somente para esta câmara do Parlamento. 6) Dissolver as duas câmaras e convocar de imediato novas eleições políticas.

    Vêm à tona procedimentos típicos do parlamentarismo, distintos do nosso presidencialismo. Mas há semelhanças. Enquanto a coligação de centro-direita permaneceu impávida de fio a pavio do seu mandato, durante o governo Berlusconi, unida pelo interesse comum em aplicar políticas neoliberais e obedecer prontamente a vontade do império americano, a de centro-esquerda exibe a dificuldade de atender, dentro de suas largas fronteiras, visões conflitantes da política, da vida e do mundo.

    Se Prodi volta ao cargo, os problemas, que incluem também posturas morais, permanecem. A não ser que haja uma defecção do outro lado. De um partido, ou de um grupo, disposto a sair de vez da Casa da Liberdade, inventada e mantida por Belusconi, cidadão que não teme o ridículo.

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