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Descompromissados

sexta-feira, fevereiro 9, 2007

Leio Juremir Machado da Silva no Correio do Povo, o que faço raríssimas vezes por julgar desnecessário e sem qualquer acréscimo a uma cultura mediana. Repentinamente, é invocada em minha memória a figura de Paulo Francis, pelo polemicismo e pretensa ironia fina (a julgar o texto de Juremir que falava em lula/Lula, edição de quarta-feira); se bem que Francis dispensava vezes sem fim a ironia e partia para a agressão verbal pura e direta, mas isso é outra história. O que aproxima, para mim, esses dois jornalistas é o descompromisso. Tanto Juremir como Paulo Francis vêem-se como livres pensadores — o segundo chegava mesmo a declarar que seu objetivo era fazer com que as pessoas pensassem por si próprias. Imaginam-se renegados, injustiçados, mal-amados pela pátria que tanto veneram e, acima de tudo, indubitavelmente capazes de contribuir para o desenvolvimento do país enquanto nação. Para isso, normalmente, usam a comparação descabida, a veemência quase raivosa, o desprezo e, inconscientemente ou não, a injustiça. (Até aqui, tenho sido injusto para com Juremir Machado da Silva: a aproximação intelectual com Paulo Francis, proposta por mim, é despida de qualquer sentido — Francis é muito mais filósofo e muitíssimo mais jornalista que Juremir.) Pois por ocasião do aniversário de 10 anos da morte de Paulo Francis (em 4 de fevereiro) me peguei pensando sobre sua figura enigmática de quem engaja-se na efervecência cultural dos anos 1960 (quase) militando na esquerda e acaba por assumir o posto de conservador-mor da maior defensora do status quo brasileiro, a Rede Globo. E confesso que não entendo. Não a reviravolta ideológica, que isso todos devem sentir-se livres para fazer, de um lado a outro, e sim o que queria, afinal, dizer o velho Francis. Qual era a sua mensagem? De sua trajetória jornalística ficou, sem dúvida, a coragem de dizer o que pensa e isso é cada vez mais raro no Brasil. Mas restou-me a convicção de que tanto Francis quanto Juremir, cada qual em sua escala de importância e coerência, não têm qualquer comprometimento com o que defendia/defende, nenhum compromisso com o próprio país e por isso, somente por isso, representam — bastante falsamente, é minha opinião — personalidades “brilhantes”, a priori intelectuais independentes e imensamente sábios. 

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2 Comentários leave one →
  1. Eduardo permalink
    segunda-feira, fevereiro 12, 2007 3:44

    Jardel,

    Se tu acha que Juremir e Francis são descompromissados com o que defendem, tu não entende o que eles defendem.

    Acho que esse é o problema. É impossível parecer compromissado em uma causa que quase ninguém compreende. Ainda mais quando se é arrogante.

    Abraço

    (e passei a ler teu blog a partir de hoje)

  2. Veri permalink
    sábado, fevereiro 10, 2007 18:39

    Admito não conhecer muito o pensamento acadêmico do Juremir. Por isso, deixo claro que minha opinião aqui refere-se unicamente ao que o ouvi falar no SBT e em sua coluna do Correio do Povo. Nessas duas mídias, confesso que ele não me convence nem um pouco. Acho a irônia dele vazia, depropositada. Talvez quando fale sério as coisas se esclareçam…

    Beijos

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