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Enterrem-me em pé

terça-feira, fevereiro 6, 2007

:: ENTERREM-ME EM PÉ, A LONGA VIAGEM DOS CIGANOS
:: ISABEL FONSECA :: Companhia das Letras
:: 1ª edição: 1996
:: 368 páginas

A narrativa de Isabel Fonseca reproduz o próprio espírito cigano: relatos de onde os pés pisam, acrescidos os raciocínios e conclusões de jornalista perspicaz, sensível e inteligente. Enterrem-me em pé, a longa viagem dos ciganos é fiel ao modo de vida e forma de pensar. Assim, não resulta numa obra-prima definitiva sobre os ciganos — serve-lhes de espelho, refletindo a própria confusão e complexidade. Para um leitor, fazendo juízo daquilo que leu, pode-se falar até mesmo em irredutibilidade. Os ciganos são o único povo que não precisa, e sobretudo não quer, uma pátria. Redefinem sua própria identidade, que se mantém a mesma há quase um milênio. São humanos fascinantes, misteriosos. A “problemática cigana” persiste nas sociedades modernas, principalmente na Europa, o que proporciona um retorno constante à questão. Esses homens e mulheres, em síntese, recusam a integração, num sentido de auto-proteção, ao mesmo tempo em que clamam para fazer parte de estruturas sociais absolutamente diferentes da sua. São insistentes e têm suas razões.

O insucesso em tentar entender do que se constitui a filosofia de vida cigana é um convite à leitura de Enterrem-me em pé. Mesmo bem escrito, o livro não preenche as lacunas da incompreensão sobre os roma, como se denominam. Pelo contrário: do quadro multifacetado exposto pelo texto emerge uma confusão ainda maior, porém alicerçada agora em conhecimento prático, de quem foi até lá, conseguiu a confiança mesmo arredia dos ciganos e tratou de passar adiante a complexidade que testemunhou. Isabel Fonseca, jornalista americana, notou que o que se pode fazer é reproduzir o que vê, ouve e pensa, porque compreendê-los em sua totalidade é quase impossível. E é nesse sentido que o livro ganha sua notável importância e cumpre sua missão de forma feliz.

Enterrem-me em pé sustenta-se nas experiências da autora em viagens pela Europa Central e Oriental (Albânia, Bulgária, Romênia, Polônia, Eslováquia, Alemanha), no princípio da década de 1990. Isabel estabeleceu como parâmetro a atmosfera clássica que a palavra “cigano” evoca. A partir daí, desvenda e confirma o que é fato, metáfora, escárnio, injúria e mentira, tudo através de pessoas reais, vidas que se desenvolvem em nossos dias e, às vezes, ao nosso lado. Outra questão importante é o contraponto que, involuntariamente, ela acaba por identificar no comunismo morto da região. Seu olhar americano acaba por confundir, na minha opinião, muito daquilo que pensou ser seu objeto de estudo, que era os ciganos — e não os ciganos que viviam sob o regime comunista. Além de seus relatos de viagem, a jornalista embasa seu estudo em eficientíssimas pesquisas históricas, traçando um panorama bastante completo ao menos das circunstãncias que envolveram os ciganos, desde a Idade Média, quando entraram no mundo ocidental.

Para quem olha a trajetória do mundo e suas pessoas com a mínima curiosidade e paixão, Enterrem-me em pé é leitura obrigatória. Como não perguntar-se de onde vêm — e por que — um povo tão diferente? Como mantiveram-se à parte enquanto lutam para manter-se onde estão? As figuras desafiadoras das ciganas que nos interpelam na rua, a fim de ler-nos a sorte na palma da mão, não evocam uma curiosidade terrível em entender quem, e como, são?

Isabel Fonseca tem o ímpeto louvável do bom jornalismo. Seu texto tem graça, agilidade, talento. Seu olhar repousa sobre uma das maiores minorias do mundo, grupo por si só ricamente interessante e complexo. A despeito de algumas conclusões discutíveis, fruto muito mais do contexto que de erro de avaliação, seu livro é uma das mais incríveis histórias que já li.

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One Comment leave one →
  1. Veri permalink
    quinta-feira, fevereiro 8, 2007 1:19

    Eu quero ler esse livro…

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