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Se o futebol tem de matar…

segunda-feira, fevereiro 5, 2007

A morte de um policial em confronto com torcedores na noite de sexta-feira última, na Itália, serve como demonstração extrema do problema da violência no futebol nesses tempos recentes. O clássico siciliano Catania x Palermo, pela Lega Calcio (primeira divisão italiana) foi tumultuado ainda dentro do estádio, com demonstrações bastante ostensivas de parte das torcidas, que lançavam sinalizadores para o campo e obrigaram o árbitro a interromper a partida. A seguir, a luta armada tomou as ruas no entorno do estádio Angelo Massimino, em Catania, depois que grande parte da torcida visitante conseguiu enfim chegar para assistir à partida — o atraso aconteceu devido a medidas de segurança, com a polícia fazendo rigoroso controle na chegada à cidade. A briga generalizada entre torcedores e policiais vitimou Filippo Raciti, poliziotto de 38 anos.

Já há algum tempo me interesso e sigo de perto muitas situações críticas de violência no futebol. Talvez por ter conhecido o esporte na década de 1980, que foi também o ápice do hooliganismo. Esse período compreende duas das mais traumáticas tragédias do futebol: a de Heysel, em Bruxelas, na final da Copa Européia de 1985, e a de Hillsborough, em Sheffield, na semifinal da Copa da Inglaterra de 1989. Na primeira ocasião morreram 36 pessoas; na seguinte, foram 96. Depois disso, resoluções partidas da federação européia e de todas as filiadas nacionais conseguiram um desfecho muito positivo no futebol europeu, que se refletiu — e continua a se refletir — na altíssima freqüência de público (este, por sua vez, cada vez mais variado, outro acréscimo) aos jogos. Existem exceções, e a Itália, sistematicamente, caminhou cada vez mais para longe da civilidade nos estádios.

Verifiquei que notícias ainda do ano passado, ou mesmo de 2005, afirmavam que os dirigentes do futebol italiano estavam cogitando pôr em prática a mais eficaz forma de impedir a violência: diminuir a ostensividade e aumentar as conseqüências aos infratores. Em linhas gerais, a retirada das cercas que separam torcida e campo e um endurecimento das penas à quem infligir a regra. Ou seja: dá-se a liberdade, pune-se aqueles que não sabem a usufruir. Acredito nessas escolhas. O aumento do “estado penitenciário”, digamos assim, como em todos os setores da sociedade, apenas otimiza a tensão e a reação potencial.

O mais interessante talvez seja notar que a violência ligada ao futebol pouco ou nada tem a ver diretamente com o futebol. Em vias de regra, pessoas que dedicam-se a orquestrar e executar atos violentos o fariam em qualquer outra situação e com qualquer outro subterfúgio ou justificativa. Apressa-se em julgar o futebol por si um gerador de conflitos, quando em verdade ocorre o contrário, como já disse Richard Giullianotti, estudioso da sociologia do futebol: o jogo é a representação da guerra, com regulamentação bem definida e respeitada — o que acaba por “civilizar” o confronto em que se opõe duas forças. Pode-se dizer, em termos mais poéticos, que o futebol é a “boa guerra”.

Episódios como o de Catania apenas deturpam o futebol. Dão-lhe uma faceta que sequer lhe pertence, que nega a motivação de sua própria existência. Triste também é perceber que a violência chega a nós cotidianamente como uma cultura, algo zelosamente cuidado. É antes, penso, uma falha de caráter, produto de um mundo e pessoas em desintonia com os mínimos valores humanos. Quem os têm, concorda com a frase estampada na capa da revista Time, por ocasião da tragédia de Heysel: “se o futebol tem de matar, que morra o futebol”. 

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