Skip to content

Vendetta, subVersão

terça-feira, janeiro 23, 2007

Demorei a assistir o filme por uma resistência que descobri ser elogiável. O próprio criador da trama desgosta da adaptação para o cinema de algo próprio do universo das HQs. É importante frisar que as histórias em quadrinhos ganharam status de “literatura pictórica” desde que o mesmo Alan Moore trouxe às mentes de milhares de pessoas essa forma narrativa. Evidentemente, a questão não está resumida à maneira como se conta uma históra — fosse assim, os quadrinhos há muito já teriam sua importância cultural reconhecida, o que só aconteceu na década de 1980. Moore oportunizou o aprofundamento de questões essenciais através dos desenhos narrados, sobretudo com a elogiadíssima série Watchmen, acompanhada de outros clássicos (como o próprio V For Vendetta). Hoje, há quem diga que as HQs têm a importância intelectual tal qual as demais artes. Isso, é claro, pode ser contestado aqui e ali, mas notadamente a obra de Moore reforça positivamente essa idéia.

Sempre fui fã dos quadrinhos, mas confesso que num determinado momento da adolescência — basicamente aquele em que há a necessidade de diferenciar-se da massa humana quase robotizada pelos hormônios —, identifiquei nos leitores (e fãs) de HQs tipos a serem suprimidos do convívio social. Isso porque obedeciam às sugestões das próprias histórias que liam, isto é, deslocavam-se do mundo real para o imaginário. Não trata-se de virar completamente lunático, mas sim ter a ilusão de que as coisas poderiam ser resolvidas da forma “super-heróica” da ficção. Enfim, não há grande erro em afirmar que a média dos leitores de HQs torna-se imbecil — ou seriam imbecilizados?. A diferença está naqueles que apenas identificam nos desenhos uma forma narrativa diversa e, portanto, interpretam o sentido não apenas pelos desenhos ou projeções fantásticas mas também introspectivo, intelectual, filosófico. Para tornar claro o que quero dizer: histórias semelhantes em talento e idéias a, por exemplo, A Revolução dos Bichos, de George Orwell, estão sendo produzidas em formato HQ. Ou o contrário: transfere-se para os quadrinhos romances consagrados. Perde-se com isso? Acho que não, como disse, é apenas outra forma de expressão. É quase uma questão de escolha estética. Na Idade Média, os livros preferencialmente vinham com detalhadas e trabalhadas ilustrações.

V For Vendetta (V de Vingança aqui, denominação que, a meu ver, estraga o lirismo do título; do contrário, poderia manter-se a palavra no italiano, como feito no inglês) é um dos melhores exemplos de HQ séria, de qualidade e, mais do que tudo, interessante do ponto de vista ideológico. De que adiantam os super-poderes se o uso que se faz deles é bater em ladrões com camisetas listradas e boinas sujas? V propõe algo mais: mudar o sistema através da subversão. O que existe para tal são algumas habilidades, nada de visão de raio-X ou força sobrehumana. Sai o crime personificado em marginais ignorantes e entra a tirania daqueles que decidem por nós e acabam por tolher a liberdade: detidamente, os governos; eu sugiro o alargamento para qualquer forma de poder onipotente e imposto, como as grandes empresas.

Tenho de admitir que menosprezei a capacidade de sugestionamento dessa história em particular. Muitos o fizeram. Massificada pelo filme, o enredo de V põe em xeque algumas questões desconfortáveis, como o fato do herói protagonista usar de métodos “terroristas” (eu questiono a definição, mas é o que se tem falado). Não cabe tentar explicar a história. Meu maior júbilo foi me ver devolvida a esperança de fazer algo para melhor. E cada vez mais me é clara a percepção de que qualquer passo nesse sentido só é possível com a subversão, em maior ou em menor grau. V tem o embasamento teórico e tem a prática. Confio em pessoas assim, a averiguar apenas os métodos empregados. Velho mestre sempre diz: “Jornalismo é subversão, o resto é perfumaria”. Eu cá torço apenas para que cada um identifique formas próprias de subversão, no intuito bem claro e retilíneo de se fazer sempre o melhor para todos.

Por fim, assistam o filme. Tem lá seus exageros e desvios da história original, não conta com a elegãncia narrativa da HQ, mas já serve para difundir a mensagem. Por enquanto, isso é o que importa.

Entrevista
Leia entrevista do quadrinista britânico Alan Moore, criador de V de Vingança e outros clássicos das HQs, à revista Trip, no ano passado. Vale muito a pena.
Parte 1 e Parte 2.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: