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Dissimulação como arte

quarta-feira, janeiro 17, 2007

A dissimulação é, verdadeiramente, uma arte. Digna de Shakespeare, talvez. Não me parece à toa que Capitu tenha se tornado uma das mais marcantes personagens da literatura brasileira. Capitu, de “olhos de cigana oblíqua”, era enigmática, quase sombria — e, para tanto, havia a candente necessidade de ser dissimulada.

Pois essa peculiaridade pertence — não exclusivamente, é claro — a quem, no mínimo, sonega alguma verdade. Esgueirando-se de evidenciar o que sabe ser verdade, cria-se uma nova realidade. Isso, dito com outras palavras, é o que Perseu Abramo escreveu sobre nossa imprensa, que repetidas e infinitas vezes faz-se de rogada, dá o tapa e esconde a mão, como crianças ingênuas que julgam enganar aos mais velhos. O alvo preferencial agora é Hugo Chávez — vale a explicação: não sou propriamente fã do presidente venezuelano, mas tenho a tendência de aplaudir algumas de suas atitudes, que deveriam contar muito mais que sua retórica.

Chávez tem a ousadia de tentar. Ele recusa-se a balançar os ombros, projetar o farto beiço crioulo e acomodar-se na cadeira presidencial enquanto telefona a Washington para pedir orientação. Não. Chávez tem o defeito de sonhar com a tal revolução bolivariana, um país um pouco mais justo para seus cidadãos, uma Venezuela aconchegada em um continente familiar, independente e, sobretudo, sincero consigo mesmo. Exatamente por isso, por desejar algo radicalmente diferente do usual e corriqueiro, Chávez é atacado. Menos pela sua retórica e quase patética fanfarrice de, literalmente, chamar os Estados Unidos para a briga. O que está em questão para os que detêm o poder do mundo é a sua petulância e por isso Chávez deve pagar.

Para isso, as manchetes — afinal é para isso que existem os nossos jornais: servir e defender o poder, ao invés de vigiá-lo e cobrar-lhe decência. E então, no dia após a posse para o terceiro mandato, as letras que mais parecem vozes ressoantes bradam que Chávez “ameaça com o socialismo”, “citando seu amigo e ditador Fidel Castro em discurso”. Os jornalões impressionam-se com “pátria, socialismo ou morte”, mas jogam no gigantesco caldeirão da indiferença a arrogância, desfaçatez e tirania do Império. Ou alguém leu manchete acusando George W. Bush, o Júnior, de ditador? Não irão fazer, mas qualquer jornal poderia ouvir uma dezena de soldados que serão invariavelmente enviados ao Iraque, talvez para morrer numa guerra sem sentido algum. Muitos, toscamente, levariam a mão ao peito e bradariam palavras repetidas, bordões bitolados de amor à pátria e liberdade — mesmo que estejam indo destruir a pátria e tirar a liberdade de outros. Muitos, a maioria (senão quase todos), pediriam pura e simplesmente para ficar em suas casas. Envergonhados, mas vivos.

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