O ogro
Wayne Rooney deve ter sido um desses guris metidos que prometem — e cumprem — bater em todo mundo, às vezes apenas por um olhar atravessado ou uma negativa audaciosa. A Inglaterra (mas não apenas) está cheia do tipo, que pululam nos subúrbios empobrecidos das cidades industriais, gente bronca, normalmente filhos de bêbados violentos que serão bêbados, e provavelmente violentos, também. Mas Rooney hoje não é mais aquele projeto de hooligan que chegou ao Everton de Liverpool, oito anos atrás. Dia desses li uma longa entrevista sua (para o Guardian, se não me engano) e me impressionei com o que tinha para dizer: eram palavras de alguém que pondera muito antes de falar e, sobretudo, aprendeu bastante coisa.
Como normalmente acontece em boas entrevistas, o esportista que se vê questionado sobre tudo o que vai além do seu papel diário como jogador nos fornece informações interessantes sobre a pessoa que é (quase sempre não precisaríamos saber nada a respeito, mas às vezes nos sentimos curiosos). Posso me dizer impressionado com Rooney. Não me surpreende mais que seja, para mim, o melhor jogador do mundo na atualidade.
Nas fotos que preenchem os muitos sites com fichas de jogadores de futebol, o corpulento inglês de Croxteth (subúrbio da cidade dos Beatles) ainda tem aquele olhar ameaçador de guri criado na rua. É uma harmônica mistura de desconfiança, rebeldia e frieza. Já no seu site oficial, uma frase chama a atenção enquanto o ogro nos fita com olhar um pouco menos intimidador. Sir Alex Ferguson disse que “nós [o Manchester United] temos o melhor jovem jogador que esse país viu nos últimos trinta anos”. Ali mesmo há uma matéria de jornal reproduzida em que o autor (repórter do Daily Telegraph) se diz surpreso pelo fato de Rooney ser muito mais inteligente e consciente do que sugere a sua “caricatura”.
O camisa 10 do Manchester United tem apenas 24 anos — e não é que eu queira transmitir a idéia de que é um gênio das palavras ou do sentimento humano. Mas não consigo deixar de pensar que Rooney poderia ser um ninguém. O grande mérito dele está no fato de ter consciência disso, do que estava em jogo. Do contrário, perderia ele próprio. E nós também.
Rooney, com seu 1,78 metro, fez cinco gols de cabeça nas últimas semanas em confrontos importantes — aqui em Milão, pela Champions, marcou duas vezes contra o Milan; contra o West Ham, também dois gols; e decidiu a Carling Cup para os Red Devils também de cabeça, na semana passada. Dribla bem, usando a imposição física e uma certa habilidade bastante objetiva. Tem o chute forte, bom preparo e velocidade. O principal acréscimo ao seu repertório é o fato de não ser mais expulso por qualquer bobagem. Permancendo em campo, tende a se familiarizar tanto com o contexto do jogo que é capaz de marcar ao natural, por exemplo, num ambiente de pressão como o que o Milan preparou há alguns dias.
Rooney é a essência do tipo de jogador que mais aprecio. Não que pedaladas (em doses homeopáticas) não sejam divertidas, mas o que mais me comove no futebol é a beleza na objetividade. O ogro de Liverpool tem gana suficiente para jogar como se joga na infância e na adolescência — horas e horas seguidas —, e faz isso com objetividade, que mais ou menos, acho eu, sintetiza uma certa paixão pelo jogo em si.

