O fim
Deus não existe
Ou, se existe, não tem nada o que ver conosco. Pensar e discutir religião sempre é um problema por dois motivos básicos: a probabilidade de gerar conflitos e ressentimentos é imensa e, fundamentalmente, não adianta nada — uma bela nulidade qualquer papo objetivo sobre religião. Leia mais…
O ogro
Wayne Rooney deve ter sido um desses guris metidos que prometem — e cumprem — bater em todo mundo, às vezes apenas por um olhar atravessado ou uma negativa audaciosa. A Inglaterra (mas não apenas) está cheia do tipo, que pululam nos subúrbios empobrecidos das cidades industriais, gente bronca, normalmente filhos de bêbados violentos que serão bêbados, e provavelmente violentos, também. Mas Rooney hoje não é mais aquele projeto de hooligan que chegou ao Everton de Liverpool, oito anos atrás. Dia desses li uma longa entrevista sua (para o Guardian, se não me engano) e me impressionei com o que tinha para dizer: eram palavras de alguém que pondera muito antes de falar e, sobretudo, aprendeu bastante coisa.
Vestir a camiseta
Ressuscito Cantofabule, entre outros motivos, por causa deste texto. Reproduzido e bem comentado pelo Ponto de Vista, serviu para sacudir na minha memória um episódio que talvez tenha contribuído decisivamente para formar o ser humano que sou hoje. É minimanente representativo do assunto pelas condições em que ocorreu, uma experiência muito precoce que me ensinou o que eu precisava saber sobre empresas — e mercado de trabalho em geral — deste mundo selvagem e para muito poucos que é o capitalismo. Leia mais…
Leituras do ano
Não tive como cumprir minha própria meta de dois livros a cada mês. Em parte porque o verão se revelou mais determinado do que eu previa, mas sobretudo porque, ao longo do ano, em determinados momentos me faltou aquela paz de espírito utilíssima para se aproveitar ao máximo cada página. Tudo culpa de um 2009 atribuladíssimo — mesmo que eu não tivesse muito o que fazer (foi um ano inteiro de espera). Enfim, 19 livros (que poderiam e deveriam ter sido bem mais) que foram lidos com muita atenção e carinho. Leia mais…
Portoghese, italian e inglês
Decidi colocar uma certa ordem metodológica em minhas leituras já que tenho todo o tempo do mundo — para as leituras e para inventar uma metodologia. Que, na verdade, não poderia ser mais objetiva e singela: leio concomitantemente obras nas três línguas que manejo de forma satisfatória — português, inglês e italiano, e, dentro desse universo geográfico, exclusivamente obras na sua língua original. Leia mais…
Que vença o menos pior
Foi na capa da Gazzetta dello Sport de ontem que li um lamento estranho. Se falava do espetáculo que a Juventus proporcionou na noite de quarta-feira e na potencial capacidade que tem para surrupiar o scudetto das mãos da Inter. Se tratava portanto de apontar duas equipes favoritas (e tradicionais) entre 20, mas ainda assim o articulista defendia que o campeonato é “demasiadamente rico em surpresas” — talvez pensasse no Parma em quarto lugar, na Fiorentina capenga ou na Roma na parte de baixo. Imagino o que teria a dizer a respeito do nosso Campeonato Brasileiro 2009… Leia mais…
Fracasso

Em uma partida sofrível, fadada à negação de si mesmo em função do outro (que pensa exatamente da mesma forma), ainda assim poderia haver um outro resultado no Gre-nal 378. Aquele que, na minha opinião, resumiria da melhor forma a presença de espírito de todos aqueles que se relacionavam ao jogo, dos presidentes aos técnicos: 0 x 0. Já que não houve jogo, o que estaria fazendo aquele 1 no lado esquerdo do placar final? Leia mais…
Your name, sir?
Oh Deus, como é recompensador ver Hugh Laurie falando seu natural british accent… O vídeo é de um sketch da série A Bit of Fry and Laurie, da BBC2 e, por vezes, BBC1, no já distante final dos anos 80 e início dos 90.
Interessante…
…notar que minha leitura em inglês de The Adventures of Sherlock Holmes tem sido muito mais rápida e fluente que a da história das estepes euro-asiáticas, de Philippe Conrad, em português. Ambas muito mais acessíveis que o ótimo e densíssimo — mas por vezes quase intransponível — I Benandanti (no original italiano), de Carlo Ginzburg. Iniciei esse último motivadíssimo pela leitura de O Queijo e os Vermes (que recomendo entusiasticamente), mas o detetive de Sir Conan Doyle e a velocíssima cavalaria mongol deixaram os feiticeiros do historiador italiano para trás. Um atraso misterioso de mais ou menos umas 100 páginas e alguns bons meses de distância…
Inimigo
Tenho andado um pouco fora de órbita, os blogs se ressentem disso, e principalmente eu mesmo. A fase é um tanto obscura, indefinida e preguiçosa. Estou aqui já há um ano (em duas semanas o aniversário exato), degustando uma tremenda enrolação burocrática, sem trabalho e sem papéis, tudo restrito ao mínimo, economicamente falando. Não quero e não gosto de lamentar em balbúcios públicos, mas é exatamente isso que estou fazendo, percebo. Leia mais…
Vingador
“Sempre sonhei em ser um jornalista, até escrevi em uma redação na escola média: o imaginava como um ‘vingador’ capaz de consertar erros e injustiças [...] era convicto de que aquele ofício me levaria a descobrir o mundo”
“Ho sempre sognato di fare il giornalista, lo scrissi anche in un tema alle medie: lo immaginavo come un ‘vendicatore’ capace di riparare torti e ingiustizie [...] ero convinto che quel mestiere mi avrebbe portato a scoprire il mondo”
Enzo Biagi, jornalista italiano (1920-2007)
Memórias gloriosas
A notícia tem sido tratada com muito mais relevo e densidade do que o normal, uma briga dos irmãos Gallagher. Esperei ao menos um dia inteiro para procurar mais informações, pensar sobre o assunto e dizer algo na qualidade de fã “especial” do Oasis. Faço meu raciocínio como jornalista, mas também como alguém para o qual essa banda representou o que muitas bandas de rock representam: uma base para formação da personalidade, um padrão de comparação, um “óculos” quando dos tempos difíceis que são a primeira juventude. Não que eu me deixasse levar completamente pelos desatinos, mas um grande grupo é aquele que consegue ir além da música. Aquele cuja notícia são (também) as pessoas que o compõe. Me sinto, sempre me senti, como se fosse amigo, desses de ir a um pub juntos e de freqüentar a casa mesmo depois de casado, de Noel Gallagher. Mais que uma banda que tocava música que a mim dizia muito, o que mais me prendeu ao Oasis foi essa provável amizade real — distante e anônima — com um cara legal com o qual me identificava. Leia mais…
(d-_-b) Resenha musical — n° 2
KATE BUSH, THE KICK INSIDE (1978) | Talvez os modernosos recusarão a idéia, mas sem Kate Bush não existiria essa fatia do mundo musical gloriosamente feita pelas mulheres. Me refiro à forma inteligente toda feminina de fazer música, muito além do tipo “Happy Birthday, Mr. President”. Kate Bush é uma diva, no sentido mais nobre do termo, feita de qualidade intelectual e artística ao invés de outros atributos quaisquer. Foi descoberta por David Gilmour, o que quer dizer muito. “The Kick Inside” é seu exórdio, ainda nos anos 70 e, assim como Pat Metheny, um certo preconceito “Antena 1” lady Bush sofre ainda hoje: Wuthering Heights, um capolavoro estético e performático, é um dos símbolos das emitentes “sem graça” (cujo outro ícone portoalegrense é a atual rádio Continental). Evidentemente, como qualquer preconceito, é uma injustiça. “The Kick Inside” ainda está aquém do que a criatividade de Kate poderia fazer (e que demonstraria na primeira metade da década de 80), mas já exibe veementemente a qualidade de quem viria a se tornar uma das artistas mais reconhecidas da música — tanto que o álbum não passou despercebido em sua época, pelo contrário. É um disco harmonioso, equilibrado, com um grande trabalho de Kate (então com apenas 19 anos!) ao piano e, logicamente, na sua voz fantástica (apesar de por vezes um pouco infantil e caricata). Melodias belíssimas e elegantes em praticamente todas as 13 faixas, como em The Saxophone Song, Fell It, a já citada Wuthering Heights e a faixa-título. Kate dá graça e leveza às suas composições (essa a minha idéia de diva). Absolutamente atual — como se a boa música tivesse prazo de validade…
PAT METHENY GROUP, THE WAY UP (2005) | Talvez o melhor trabalho de Pat Metheny, um incansável ícone do jazz rock/fusion e dono de uma biografia já quilométrica. Escolher aleatoriamente um álbum de Pat Metheny da sua discografia de cerca 40 álbuns pode resultar numa má impressão, porque por vezes a música do norte-americano soa piegas. “The Way Up”, no entanto, é escolha certa: quatro faixas apenas, mas tempo total de quase uma hora e dez minutos (conforme manda o figurino), com música elegante, refinada, pensada sem a preocupação de agradar — Pat Metheny é daqueles grupos cuja música é símbolo do “estilo rádio Antena 1”, por vezes fundo de jantares beneficientes e coisas do tipo. Mas “The Way Up” vai agradar até mesmo àqueles com espírito mais, digamos, jovem. Basta ter bom gosto.
JEFF BUCKLEY, GRACE (1994) | Existe vida inteligente no pop. Ainda que Jeff Buckley dê uma alma rock a seu único álbum, “Grace” é essencialmente uma coleção de belas canções para rádios FM e vinhetas — o que não é uma crítica. Jeff é filho de Tim, cantor e compositor folk de fama nos anos 70, e quis o destino que o filho imitasse o pai: ambos morreram cedo, mas há quem fale em suicídio — hipótese que, a julgar pelas letras de Jeff, não soa mera indiscrição. Tim pereceu de overdose em 1975, e Jeff afogado no rio Wolf, no Tennesse, apenas três anos após o lançamento de “Grace”. Uma pena, visto que o álbum entusiasmou muita gente tão logo chegou às lojas e às paradas. Um bom disco, apesar de desigual. Sobretudo as primeiras três faixas, (Mojo Pin, Grace e Last Goodbye) são canções ímpares, resultado de um talento e uma sensibilidade interessantes, que, no mínimo, mereciam mais tempo. Na seqüência o álbum arrefece um pouco, caminha definitivamente para o pop, mas mantém a qualidade — algo raro. Jeff emprestou uma personalidade especial à conhecidíssima música de Leonard Cohen, Hallelujah, e transformou-a em hit imediato (é bastante apreciada em seriados dramáticos de tv, entre eles House, onde veio muito bem a calhar, por sinal). Perto do fim, retorna algum ímpeto mais rock com Eternal Life. A produção, da qual se encarregou junto com Andy Wallace, é muito acurada e tudo levava a crer que um grande ícone surgia. De certa forma, Jeff Buckley tornou-se de fato um ídolo da maneira mais elementar que o rock pode conceber: morrendo jovem.
(d-_-b) Resenha musical — n° 1
RADIOHEAD, IN RAINBOWS (2007) | Radiohead é um grupo que merece ser estudado. Não cientificamente, mas sociologicamente. É preciso perfilar seus álbuns, uns após o outro, e escutá-los com atenção. É um deleite musical, mas também é uma atualização. A banda de Thom Yorke faz o que poderia ser chamado de “a música de qualidade mais moderna da atualidade”. Isso pressupõe uma liberdade criativa interessante, raríssima no mainstream pós-anos 70. “In Rainbows” aparece quatro longos anos após “Hail to the Thief” e restabelece o crédito: seu predecessor havia sido um pequeno tropeço após o magnífico “Ok Computer”, o maravilhoso “Kid A” e o muito bom “Amnesiac”. Faixas mais “simples”, como Bodysnatchers, lembram o Radiohead dos primeiros tempos, enquanto o grosso do disco segue a (etérea) linha de raciocínio dos últimos álbuns, com diferenças de velocidade, produção acuratíssima e “decorações” malucas. No geral, um disco redondo, com grande conexão entre as músicas. All I Need, Reckoner, e Jigsaw Falling Into Space são grandes composições, as outras mantém a boa média, exceção feita apenas à primeira faixa. Videotape é uma espécie de música visiva e um digno encerramento.
LÚNASA, THE MERRY SISTERS OF FATE (2001) | Descobri Lúnasa numa febre pela música dita “celta” que vez por outra me assola. De fato, a banda irlandesa é talvez o maior expoente de um fenômeno bastante recente, que é a “planificação” da antiga música popular da Irlanda e da Escócia (refúgios da tradição céltica-gaélica), junto com grupos jovens como Capercaillie, Altan e os precursores (esses já velhinhos) The Chieftains. Por “planificação” entenda-se melodias adaptadas aos ouvidos modernos, logicamente sem vocais a não ser gritos esporádicos de acompanhamento que acrescentam à música exatamente a espontaneidade do tom popular do qual teve origem. “The Merry Sisters of Fate” é um belo álbum e, mesmo deliberadamente aproximado da música moderna em textura, mantém a alma legítima da cultura que representa porque mantém toda a idéia centrada em uilleann pipes e fiddles (quem não suporta gaita de fole deve evitar esse disco, bem como toda a música irlandesa). Das 11 faixas, Donough and Mike’s, Iníon Ní Scannláin, Killarney Boys of Pleasure e Return From Fingall merecem uma menção especial e não entediariam ninguém durante uma boa conversa regada a scotch ou Guinness. Ou em qualquer outra situação, diga-se.
IAN ANDERSON, WALK INTO LIGHT (1983) | Anderson é um deus, um gênio, um mago. Simplesmente é a alma do Jethro Tull, umas das bandas que me são mais caras, e que, a despeito da minha simpatia ou não, se inscreveu na história da música como capítulo de suma importância e originalidade. Mas Anderson, no retiro que foi este seu primeiro solo oficial (A, lançado em 1980 creditado ao Jethro, na verdade é o primeiro trabalho individual de Ian), erra quase completamente a mão e as idéias. “Walk Into Light” é uma tentativa de entrar na então modernidade de início dos anos 80 — o que significa algo ruim, muito ruim —, baseada em sintetizadores, teclados, computadores de oito bits e baterias eletrônicas. Não que não se possa fazer coisa boa daí, mas o fato é que, em 99% dos casos, não se fez. O álbum soa incrivelmente datado, com as tradicionais melodias simplórias e repetitivas da “querida” década perdida. Só não é pior porque é biologicamente impossível a alguém que tenha composto Thick As A Brick fazer 10 músicas completamente desprezíveis (a faixa-título e Looking for Eden oferecem alguma qualidade microscópica). Extraído do contexto, não chega a escandalizar. O drama é a constatação de que até mesmo Ian Anderson erra. E “Walk Into Light” é um erro monumental, tão sem graça quanto a capa. Mas para quem vê alguma graça na estética daquele período pode até ser que encontre algo positivo, nunca se sabe (cartas para a redação, no caso).

