Decidi colocar uma certa ordem metodológica em minhas leituras já que tenho todo o tempo do mundo — para as leituras e para inventar uma metodologia. Que, na verdade, não poderia ser mais objetiva e singela: leio concomitantemente obras nas três línguas que manejo de forma satisfatória — português, inglês e italiano, e, dentro desse universo geográfico, exclusivamente obras na sua língua original. Além de reduzir o potencial problema da leitura como casualidade (o que é imperdoável sobretudo para um jornalista), esse sistema me obriga a mudanças de percurso mais que bem-vindas e, principalmente, devolve a graça e a plenitude do sentido e das diferenças culturais entre os povos. É o máximo da satisfação e do deleite. Evidentemente algumas obras são apreciadas em ricochete, não há o que fazer. Riszard Kapuscinski, um mestre da reportagem, vai me desculpar se minha ignorância do seu polonês me atirar nos braços de edições brasileiras, inglesas ou italianas, como tem ocorrido. O mesmo vale para os russos, os franceses, os alemães, os castelhanos, e toda a miríade de povos dos quais não entendo uma única palavra.
Foi na capa da Gazzetta dello Sport de ontem que li um lamento estranho. Se falava do espetáculo que a Juventus proporcionou na noite de quarta-feira e na potencial capacidade que tem para surrupiar o scudetto das mãos da Inter. Se tratava portanto de apontar duas equipes favoritas (e tradicionais) entre 20, mas ainda assim o articulista defendia que o campeonato é “demasiadamente rico em surpresas” — talvez pensasse no Parma em quarto lugar, na Fiorentina capenga ou na Roma na parte de baixo. Imagino o que teria a dizer a respeito do nosso Campeonato Brasileiro 2009…
No Sala de Redação digladiaram-se dia desses inclusive numa polêmica sobre a fórmula, visto que uns ainda se sentem insatisfeitos com os pontos corridos e acalentem dúvidas sobre o mérito de quem consegue chegar ao fim de quase 40 jogos à frente dos demais. Eu não coloco em questão a pertinência da regra atual, mas a conversa no programa começou pelo ponto que acho importante debater, ou seja, a qualidade técnica do campeonato. Ainda que correndo o risco de alguém me ignorar baseando-se no fato de que não vejo a grande maioria dos jogos, comento pelo que vi e, sobretudo, pela tabela. Assiti alguns jogos do Palmeiras, vi o São Paulo e o Cruzeiro, uma que outra partida do Atlético-MG, torci pelo meu Grêmio e sequei o Inter — o que dá um apanhado geral da parte de cima da classificação, e por mais que o campeonato seja longo e os clubes se metamorfoseiem ao longo do ano, teoricamente são poucos os que conseguem acrescer qualidade. Escutei e li, isso sim, muito — e atentamente.
Repito que minha interpretação dos fatos é temerosa, mas não penso ser possível considerar mentalmente sano um campeonato em que o líder perde para duas equipes da zona do rebaixamento na reta final, em menos de dez dias. Alguns dirão, e dizem, que o campeonato é acirrado, e portanto emocinante e então, quase como uma conseqüência mágica, ele é um bom campeonato. Penso que não. Não que precise duas ou uma equipe 20 pontos à frente e campeã ainda faltando 15 rodadas. Não é um juízo de valor em relação à disputa em si (ainda não), mas sim à interpretação que se dá. E me causa um certo desgosto ouvir dizer que o Brasil tem o melhor campeonato do mundo porque é o mais disputado. Simplesmente não é verdade.
O que acontece é uma previsível confusão na hora de julgar um conceito, como quando nos perguntamos o que é arte. O que é belo no futebol? O que é emocionante? O que é bom? O que define o alto nível? Há quem olhe para a tabela e veja diretamente qualidade quando na parte de cima seis equipes se acotovelam na busca pelo título. Estão mirando números, mas enxergam um conceito — o do belo, do bom. Para mim, essa conversão automática é equivocada. Mesmo que alguns times contem com reforços importantes e de inegável competência, o nome da estrela no papel funciona como o ópio dos números da tabela: não existe sem a vivência real, aquela do campo. Uma ferramenta de investigação que seria útil aos defensores da qualidade indelével do campeonato nacional seria aquela de se questionar sobre quem é o campeonato. À parte uma ou outra grande presença nas equipes titulares, os melhores jogadores brasileiros não disputam nossa competição caseira. Falem o que quiserem dos campeonatos europeus principais, mas proporcionam bons jogos simplesmente porque têm bons jogadores. A prova do comparativo que estou propondo é que Mário Fernandes, talvez a maior revelação do Grêmio depois de Ânderson, já está na mira da Inter de Milão, e sete entre dez estrelas de qualquer rodada do italiano são jogadores brasileiros.
Acho o Campeonato Brasileiro — fazendo uma representação coletiva — um certame pobre em qualidade, já há algum tempo, e não consigo deixar de pensar que a fórmula de pontos corridos salientou ainda mais essa característica. A fórmula, vejam bem, é inocente, como disse anteriormente, e não há método melhor de se apontar o campeão. Que, no caso, penso que será aquele que exibir menos seus flagelos e limitações — o que ainda é futebol, felizmente. Que vença o menos pior.

Em uma partida sofrível, fadada à negação de si mesmo em função do outro (que pensa exatamente da mesma forma), ainda assim poderia haver um outro resultado no Gre-nal 378. Aquele que, na minha opinião, resumiria da melhor forma a presença de espírito de todos aqueles que se relacionavam ao jogo, dos presidentes aos técnicos: 0 x 0. Já que não houve jogo, o que estaria fazendo aquele 1 no lado esquerdo do placar final? O Inter teve duas oportunidades reais (uma evitada por Victor e outra concedida por ele), assim como o Grêmio (que não teve concessões), e é interessante notar como as pessoas esqueceram-se de dizer que a amarga vitória foi conseqüência da quase total casualidade. Assim como outro equívoco impediu que tudo se equilibrasse na sua mediocridade: o árbitro não viu o pênalti na área colorada porque olhava a bola. Devia temer que ela cometesse alguma infração ainda no ar, talvez se negando a girar, mudando de cor ou sabe-se lá o que mais passava pela cabeça do homem de preto (que apropriadamente vestia amarelo). Confesso que me sinto derrotado à potência n, perdendo um jogo horrível, covarde, para uma equipe tão precária quanto a minha, numa falha do melhor jogador entre todos que estavam sobre a grama. Mas o que é mais nocivo é a espécie de homenagem que alguns conseguem prestar aos responsáveis pelo fracasso do futebol que se celebrou na tarde de domingo.
Oh Deus, como é recompensador ver Hugh Laurie falando seu natural british accent… O vídeo é de um sketch da série A Bit of Fry and Laurie, da BBC2 e, por vezes, BBC1, no já distante final dos anos 80 e início dos 90.
…notar que minha leitura em inglês de The Adventures of Sherlock Holmes tem sido muito mais rápida e fluente que a da história das estepes euro-asiáticas, de Philippe Conrad, em português. Ambas muito mais acessíveis que o ótimo e densíssimo — mas por vezes quase intransponível — I Benandanti (no original italiano), de Carlo Ginzburg. Iniciei esse último motivadíssimo pela leitura de O Queijo e os Vermes (que recomendo entusiasticamente), mas o detetive de Sir Conan Doyle e a velocíssima cavalaria mongol deixaram os feiticeiros do historiador italiano para trás. Um atraso misterioso de mais ou menos umas 100 páginas e alguns bons meses de distância…
Tenho andado um pouco fora de órbita, os blogs se ressentem disso, e principalmente eu mesmo. A fase é um tanto obscura, indefinida e preguiçosa. Estou aqui já há um ano (em duas semanas o aniversário exato), degustando uma tremenda enrolação burocrática, sem trabalho e sem papéis, tudo restrito ao mínimo, economicamente falando. Não quero e não gosto de lamentar em balbúcios públicos, mas é exatamente isso que estou fazendo, percebo. O resultado é um quarto vazio por várias horas do dia e, sobretudo, a necessidade de ter de enfrentar sozinho meu maior inimigo: não me restou muita motivação e o problema, definitivamente, é mais eu mesmo que qualquer outra coisa. Não tenho tido muito o que dizer — reformulo: não tenho tido muita vontade de dizer.
Resta intacta apenas a vontade quase desesperada de aprender e captar as coisas, todas elas, e por isso os livros vão vendo os marcadores de páginas escorrerem ligeiros. Mas nada me impele a caminhadas, conversas, o mundo em geral. E isso me preocupa. Meu desejo é de ficar sentado, o chá quente, pilhas de livros e a companhia à volta. No quase absoluto silêncio. Esperando, como tenho esperado já há algum tempo, não sei bem o quê.
“Sempre sonhei em ser um jornalista, até escrevi em uma redação na escola média: o imaginava como um ‘vingador’ capaz de consertar erros e injustiças [...] era convicto de que aquele ofício me levaria a descobrir o mundo”
“Ho sempre sognato di fare il giornalista, lo scrissi anche in un tema alle medie: lo immaginavo come un ‘vendicatore’ capace di riparare torti e ingiustizie [...] ero convinto che quel mestiere mi avrebbe portato a scoprire il mondo”
Enzo Biagi, jornalista italiano (1920-2007)
A notícia tem sido tratada com muito mais relevo e densidade do que o normal, uma briga dos irmãos Gallagher. Esperei ao menos um dia inteiro para procurar mais informações, pensar sobre o assunto e dizer algo na qualidade de fã “especial” do Oasis. Faço meu raciocínio como jornalista, mas também como alguém para o qual essa banda representou o que muitas bandas de rock representam: uma base para formação da personalidade, um padrão de comparação, um “óculos” quando dos tempos difíceis que são a primeira juventude. Não que eu me deixasse levar completamente pelos desatinos, mas um grande grupo é aquele que consegue ir além da música. Aquele cuja notícia são (também) as pessoas que o compõe. Me sinto, sempre me senti, como se fosse amigo, desses de ir a um pub juntos e de freqüentar a casa mesmo depois de casado, de Noel Gallagher. Mais que uma banda que tocava música que a mim dizia muito, o que mais me prendeu ao Oasis foi essa provável amizade real — distante e anônima — com um cara legal com o qual me identificava.
Antes de mais nada, devo dizer que sempre é útil uma dose de cautela com essas histórias de brigas entre ele e Liam. Mas, considerando tudo, definitivamente há algo de estranho e pesado. Não cancelariam os três últimos shows de uma turnê como parte de um novo golpe de marketing. Pode ser que eu não conheça muito bem meu amigo distante, mas não acho que faria isso alegando uma briga (com testemunhas) e elencando argumentos fortes para anunciar o fim de “18 anos incríveis”. O mais irônico — e uso essa palavra para não me entristecer ainda mais — é que eu poderia ter participado de uma espécie de rito de passagem, já que eu previa o fim do grupo há ao menos dois anos. Primeiro, o show portoalegrense que, além de histórica e musicalmente lendário (segundo minhas fontes), acontece justamente alguns meses após eu sair definitivamente da cidade que me viu crescer. Segundo, o que seria o derradeiro show, precisamente ontem, em Milão, onde viverei em breve e que me está acessível, logicamente não aconteceu.
Penso, sim, o Oasis como uma das 10 maiores bandas de rock da história. A despeito da minha afeição, o que está acontecendo (caso se confirme) é o fim de uma página da música, as pessoas queiram ou não. Foi daqueles grupos que serviu de fundo musical a uma geração e, ao contrário do que se possa pensar, não são as gerações que definem sua trilha sonora. É a música que traduz o sentimento, a emoção, a vida das pessoas. “Levo comigo memórias gloriosas”, escreveu Noel — e escrevo eu.
KATE BUSH, THE KICK INSIDE (1978) | Talvez os modernosos recusarão a idéia, mas sem Kate Bush não existiria essa fatia do mundo musical gloriosamente feita pelas mulheres. Me refiro à forma inteligente toda feminina de fazer música, muito além do tipo “Happy Birthday, Mr. President”. Kate Bush é uma diva, no sentido mais nobre do termo, feita de qualidade intelectual e artística ao invés de outros atributos quaisquer. Foi descoberta por David Gilmour, o que quer dizer muito. “The Kick Inside” é seu exórdio, ainda nos anos 70 e, assim como Pat Metheny, um certo preconceito “Antena 1” lady Bush sofre ainda hoje: Wuthering Heights, um capolavoro estético e performático, é um dos símbolos das emitentes “sem graça” (cujo outro ícone portoalegrense é a atual rádio Continental). Evidentemente, como qualquer preconceito, é uma injustiça. “The Kick Inside” ainda está aquém do que a criatividade de Kate poderia fazer (e que demonstraria na primeira metade da década de 80), mas já exibe veementemente a qualidade de quem viria a se tornar uma das artistas mais reconhecidas da música — tanto que o álbum não passou despercebido em sua época, pelo contrário. É um disco harmonioso, equilibrado, com um grande trabalho de Kate (então com apenas 19 anos!) ao piano e, logicamente, na sua voz fantástica (apesar de por vezes um pouco infantil e caricata). Melodias belíssimas e elegantes em praticamente todas as 13 faixas, como em The Saxophone Song, Fell It, a já citada Wuthering Heights e a faixa-título. Kate dá graça e leveza às suas composições (essa a minha idéia de diva). Absolutamente atual — como se a boa música tivesse prazo de validade…
PAT METHENY GROUP, THE WAY UP (2005) | Talvez o melhor trabalho de Pat Metheny, um incansável ícone do jazz rock/fusion e dono de uma biografia já quilométrica. Escolher aleatoriamente um álbum de Pat Metheny da sua discografia de cerca 40 álbuns pode resultar numa má impressão, porque por vezes a música do norte-americano soa piegas. “The Way Up”, no entanto, é escolha certa: quatro faixas apenas, mas tempo total de quase uma hora e dez minutos (conforme manda o figurino), com música elegante, refinada, pensada sem a preocupação de agradar — Pat Metheny é daqueles grupos cuja música é símbolo do “estilo rádio Antena 1”, por vezes fundo de jantares beneficientes e coisas do tipo. Mas “The Way Up” vai agradar até mesmo àqueles com espírito mais, digamos, jovem. Basta ter bom gosto.
JEFF BUCKLEY, GRACE (1994) | Existe vida inteligente no pop. Ainda que Jeff Buckley dê uma alma rock a seu único álbum, “Grace” é essencialmente uma coleção de belas canções para rádios FM e vinhetas — o que não é uma crítica. Jeff é filho de Tim, cantor e compositor folk de fama nos anos 70, e quis o destino que o filho imitasse o pai: ambos morreram cedo, mas há quem fale em suicídio — hipótese que, a julgar pelas letras de Jeff, não soa mera indiscrição. Tim pereceu de overdose em 1975, e Jeff afogado no rio Wolf, no Tennesse, apenas três anos após o lançamento de “Grace”. Uma pena, visto que o álbum entusiasmou muita gente tão logo chegou às lojas e às paradas. Um bom disco, apesar de desigual. Sobretudo as primeiras três faixas, (Mojo Pin, Grace e Last Goodbye) são canções ímpares, resultado de um talento e uma sensibilidade interessantes, que, no mínimo, mereciam mais tempo. Na seqüência o álbum arrefece um pouco, caminha definitivamente para o pop, mas mantém a qualidade — algo raro. Jeff emprestou uma personalidade especial à conhecidíssima música de Leonard Cohen, Hallelujah, e transformou-a em hit imediato (é bastante apreciada em seriados dramáticos de tv, entre eles House, onde veio muito bem a calhar, por sinal). Perto do fim, retorna algum ímpeto mais rock com Eternal Life. A produção, da qual se encarregou junto com Andy Wallace, é muito acurada e tudo levava a crer que um grande ícone surgia. De certa forma, Jeff Buckley tornou-se de fato um ídolo da maneira mais elementar que o rock pode conceber: morrendo jovem.
RADIOHEAD, IN RAINBOWS (2007) | Radiohead é um grupo que merece ser estudado. Não cientificamente, mas sociologicamente. É preciso perfilar seus álbuns, uns após o outro, e escutá-los com atenção. É um deleite musical, mas também é uma atualização. A banda de Thom Yorke faz o que poderia ser chamado de “a música de qualidade mais moderna da atualidade”. Isso pressupõe uma liberdade criativa interessante, raríssima no mainstream pós-anos 70. “In Rainbows” aparece quatro longos anos após “Hail to the Thief” e restabelece o crédito: seu predecessor havia sido um pequeno tropeço após o magnífico “Ok Computer”, o maravilhoso “Kid A” e o muito bom “Amnesiac”. Faixas mais “simples”, como Bodysnatchers, lembram o Radiohead dos primeiros tempos, enquanto o grosso do disco segue a (etérea) linha de raciocínio dos últimos álbuns, com diferenças de velocidade, produção acuratíssima e “decorações” malucas. No geral, um disco redondo, com grande conexão entre as músicas. All I Need, Reckoner, e Jigsaw Falling Into Space são grandes composições, as outras mantém a boa média, exceção feita apenas à primeira faixa. Videotape é uma espécie de música visiva e um digno encerramento.
LÚNASA, THE MERRY SISTERS OF FATE (2001) | Descobri Lúnasa numa febre pela música dita “celta” que vez por outra me assola. De fato, a banda irlandesa é talvez o maior expoente de um fenômeno bastante recente, que é a “planificação” da antiga música popular da Irlanda e da Escócia (refúgios da tradição céltica-gaélica), junto com grupos jovens como Capercaillie, Altan e os precursores (esses já velhinhos) The Chieftains. Por “planificação” entenda-se melodias adaptadas aos ouvidos modernos, logicamente sem vocais a não ser gritos esporádicos de acompanhamento que acrescentam à música exatamente a espontaneidade do tom popular do qual teve origem. “The Merry Sisters of Fate” é um belo álbum e, mesmo deliberadamente aproximado da música moderna em textura, mantém a alma legítima da cultura que representa porque mantém toda a idéia centrada em uilleann pipes e fiddles (quem não suporta gaita de fole deve evitar esse disco, bem como toda a música irlandesa). Das 11 faixas, Donough and Mike’s, Iníon Ní Scannláin, Killarney Boys of Pleasure e Return From Fingall merecem uma menção especial e não entediariam ninguém durante uma boa conversa regada a scotch ou Guinness. Ou em qualquer outra situação, diga-se.
IAN ANDERSON, WALK INTO LIGHT (1983) | Anderson é um deus, um gênio, um mago. Simplesmente é a alma do Jethro Tull, umas das bandas que me são mais caras, e que, a despeito da minha simpatia ou não, se inscreveu na história da música como capítulo de suma importância e originalidade. Mas Anderson, no retiro que foi este seu primeiro solo oficial (A, lançado em 1980 creditado ao Jethro, na verdade é o primeiro trabalho individual de Ian), erra quase completamente a mão e as idéias. “Walk Into Light” é uma tentativa de entrar na então modernidade de início dos anos 80 — o que significa algo ruim, muito ruim —, baseada em sintetizadores, teclados, computadores de oito bits e baterias eletrônicas. Não que não se possa fazer coisa boa daí, mas o fato é que, em 99% dos casos, não se fez. O álbum soa incrivelmente datado, com as tradicionais melodias simplórias e repetitivas da “querida” década perdida. Só não é pior porque é biologicamente impossível a alguém que tenha composto Thick As A Brick fazer 10 músicas completamente desprezíveis (a faixa-título e Looking for Eden oferecem alguma qualidade microscópica). Extraído do contexto, não chega a escandalizar. O drama é a constatação de que até mesmo Ian Anderson erra. E “Walk Into Light” é um erro monumental, tão sem graça quanto a capa. Mas para quem vê alguma graça na estética daquele período pode até ser que encontre algo positivo, nunca se sabe (cartas para a redação, no caso).
Inicio uma tentativa de tornar o blog um lugar realmente interessante. Fica difícil competir por um pouco de atenção com tweets, facebooks e sites da mídia corporativa. Se vendeu tão bem aquela visão paradisíaca do blog como veículo de livre expressão individual que até mesmo eu acreditei: agora sei que não se trata de nada mais que um folheto, cuja leitura se limita, em 95% ou mais dos casos, a um pequeno círculo de pessoas conhecidas, amigos que lêem os amigos — ou uma pequena parte dos amigos que lêem uma parte ainda menor. Não aquela janela para o mundo conhecer suas opiniões, como se dizia.
Pois minha idéia “inovadora” promete divertir ao menos a mim mesmo — prova de que essa idéia nada mais é que falta do que fazer. Passo a escrever pequenas resenhas de álbuns e livros. Mais de álbuns que de livros, não porque os leia menos, mas a literatura, seja do tipo que for, é mais difícil de sintetizar, interpretar, teorizar. O disco, por sua vez, é composto de faixas que se pode avaliar, somar tudo e dar uma nota — isso até o fim iminente do álbum, previsto para daqui a pouco.
Serão pequenos textos e a seleção fica por conta da minha preferência de momento. Tudo absolutamente aleatório, ou quase absolutamente. Não haverá periodicidade fixa, mas tudo me leva a crer que será fluente. Álbuns musicais e livros terão avaliações diferentes, como é de se esperar de alguém que deseja fazer algo minimamente sério. Os discos receberão notas numéricas, enquadradas pelo valor dentro de sete diferentes conceitos (quadro ao lado). Pela natureza complexa da “leitura” que se faz da música, pode ser que se repita, vez por outra, uma resenha de determinado álbum, caso eu julgue necessário reavaliar. Obviamente obedecerá à minha preferência musical (ainda não recebo salário pra escrever sobre música), mas há o consolo de que minha preferência é gigantesca — apesar de não contar com muita música brasileira, vai da erudita ao punk. Os livros terão uma classificação mais simples, pelos motivos que elenquei acima: de zero a cinco estrelas.
Evidentemente, feitas assim, essas resenhas me lembram o perigo (e a tensão que eu mesmo me imponho) de se estar seguindo a lógica produtiva, algo como uma esteira mercadológica em que a música e a literatura, os “produtos”, são expostos friamente com etiquetinhas de avaliação. Afinal, pequenos bloquinhos de textos analisando e rabiscando sinais de mais ou de menos no trabalho — artístico — dos outros sempre me pareceu quase uma violência (acho que é o caso de dizer que o meio prejudica a mensagem). Tento me convencer de que não é assim simplesmente porque me proponho a fazer algo, de forma absolutamente livre, para os outros: tenho uma certa esperança vazia de que as resenhas recebam bastante comentários, contra-argumentação, críticas. Mas que, sobretudo, sirva de guia e de estímulo a descobertas ou rememorações.
Depois de assistir a uma das melhores propagandas que já vi na vida, tive subitamente ganas de: 1) beber um belo Black Label bem acomodado numa poltrona macia de couro em tom avermelhado; 2) falar o inglês com o indefectível “r” à escocesa (assim como agora sou propenso a falar o italiano com o acento vêneto); e 3) caminhar, caminhar muito (poderia ir a Milão a pé, ver minha Veri depois de três semanas separados). Isso foi ontem; hoje acordei com o desejo número 3 intensificado e por isso decidi ir comprar o jornal no centro da cidade, já que nesse calor, para conservação da vida, não me atreveria a percorrer 300 quilômetros sob o sol. Percebi que se não fizesse algo ia acabar de enlouquecer — ainda ontem, sozinho em casa, regia uma inteira orquestra com os fones no ouvido. Aproveitei o que deveria ser uma manhã fresca depois de uma madrugada de tempestade violenta e fiz minha segunda deriva em três dias.
Na verdade a brisa durou apenas algumas horas. Mesmo assim, quando saí de casa havia um fraco vento gélido e nuvens no céu. Novamente procurei diminuir meu ritmo natural de caminhada, o que equivale a dizer que não ultrapassei desabaladamente todas as pessoas que encontrei pelo caminho. Desta vez a cidade estava risonha, talvez satisfeita com a chuva da noite e o clima ameno. Apesar de amanhã ser o feriado exclusivamente italiano de Ferragosto (Feriae Augusti, o período de descanso instituído pelo imperador Augusto ainda antes de Cristo), nas ruas transitava um número considerável de pessoas, a maioria turistas, mas vi muitos padovanos em passeio.
Fui até a Piazza delle Erbe, na volta passei em frente ao Caffè Pedrocchi, onde encontrei em movimento uma horda de turistas alemães de máquinas fotográficas em punho. Formavam um grupo coeso de umas 40 pessoas — o maior contingente isolado de turistas que já vi. Logo atrás vinham alguns franceses. “Tres jolie! Tres jolie!” Algumas distintas senhoras mantinham os queixos num ângulo de cerca 60 graus, olhando para todos os lados sorrindo, enquanto um senhor imiscuído no meio do pequeno batalhão feminino, que parecia bastante satisfeito com a visita, me saudou num italiano afrancesado, arrastando o “r” do buongiorno, certamente me tomando como padovano. Tocou rapidamente o ombro de uma idosa elegante (“ali está um nativo!”, deve ter querido comunicar) e essa imediatamente me sorriu, balançando a cabeça.
Comprei o Corriere Della Sera (o principal jornal italiano, mas abertamente centro-direitista que, por isso, quase nunca compro, mas que, exatamente por quase nunca o fazer, hoje resolvi ver o que dizia). Devo admitir que a edição estava muito apetitosa, com matérias aprofundadas, textos grandes e artigos interessantes. Caminhei ainda alguns metros enquanto esquadrinhava as páginas que mereceriam uma leitura imediata e acabei por acomodar-me num pequeno banco de pedra no centro da Via Santa Lucia, o miolo fashion de Padova. Ao meu lado havia um gentiluomo de camisa verde e ar sério mas amistoso. Lia o Libero, um jornal diário ostensivamente puxa-saquista de Berlusconi. O diretor, Emilio Fede, é despudoradamente porta-voz do primeiro-ministro também na TV, onde manda e (a calhar) apresenta o telejornal do Canale 5, de propriedade de Berlusconi. Emilio, há alguns dias, foi visto ao chegar na Sardenha para um período de férias no resort do patrão, acompanhado do mesmo. Um avião oficial os conduziu, mas isso não gerou quase escândalo algum — poucas coisas ainda são capazes de escandalizar os italianos, quando souber de uma publico aqui.
O simpático senhor de camisa verde lia, portanto, o Libero, e lamentei não ter comprado o l’Unità, ou La Stampa, ou La Repubblica. Quem sabe ainda o Il Manifesto. Como havia me dito o Ungaretti, na Europa (como acontecia no Brasil de 40 anos atrás) se pode identificar minimamente a ideologia política a partir do jornal que se lê. Como jornalista, isso é um problema, porque em tese deveríamos ler todos, e tenho certeza que já passei por direitista muitas vezes ao ser visto na rua com o Corriere debaixo do braço. Na Itália (melhor dizendo, em determinados locais mais intelectualmente ativos), a opinião política conta muito e existe uma dicotomia muito acentuada. Por isso queria tanto ter incomodado o senhor camisa-verde com qualquer outra publicação de centro-esquerda, mas estávamos, ali sentados, aparentemente aproximados ideologicamente.
Uma dezena de páginas e encontrei, de improviso, uma palavra determinante para o significado da notícia e da qual não fazia a mais pálida idéia do que significava. Me dirigi não ao camisa-verde, mas a uma mulher, que logo percebi ser padovana, pedindo que me esclarecesse a dúvida. Foi muito simpática, mas me perguntou enfaticamente se não era italiano, “pela dúvida”. À resposta, sorriu satisfeita. Viu no meu jornal uma chamada que tratava de casamentos arranjados entre extra-comunitários e italianos. Comentou comigo e percebi que queria saber se eu era casado com uma italiana. Sim, sou casado com uma cidadã, mas ela também é nascida no Brasil. Somos de origem italiana. Ah, que interessante. “Mas então tu és um italiano. Não pareces um imigrante.” Ah, que interessante…
À página 15 fiquei sabendo de novas denúncias contra soldados israelenses quando da ofensiva da virada do ano contra os territórios palestinos. Teriam massacrados civis que clamavam por misericórdia sob trapos brancos, “rendendo-se”. A organização Human Rights Watch, que tem conduzido investigações sobre abusos durante os ataques, conta já 11 civis assassinados, entre os quais cinco mulheres e quatro crianças. “Agitamos bandeiras brancas por sete ou nove minutos. De repente, abriram fogo”, contou uma senhora, avó de três meninas (de dois, quatro e sete anos de idade). No dia 7 de janeiro, em Jabalya, na Faixa de Gaza, soldados israelenses “teriam matado” (é como diz o Corriere) a sangue-frio duas delas. A anciã, uma cunhada e as três netas haviam saído de dentro de casa a passo lento e temeroso, obedecendo às ordens gritadas pelos soldados através de megafone.
Ergui quase instintivamente os olhos da página e olhei em torno. É absolutamente agradável a vida nesta parte do mundo: perto de mim havia muitas crianças, em carrinhos confortáveis, no confortável colo dos pais ou saltitando no chão. Invariavelmente as pessoas andam bem vestidas aqui. Parecem também bem nutridas, animadas e com uma satisfação indescritível em caminhar por aí, despreocupadas, abrindo a carteira de vez em quando. Respirei aliviado, li um artigo instigante sobre o declínio da Grã-Bretanha, algo promissor a respeito da iminente recuperação econômica, o caderno de esportes, e voltei para casa.
Não adianta, o verão é meu carrasco mesmo no hemisfério norte. À parte algumas semanas de calor de grife norte-africana (fenômenos anormais), a estação estiva é sim menos terrível que na parte meridional do planeta (por exemplo, não me faz conspirar contra a própria vida), mas ainda assim opressiva. O que me convida a permanecer na segurança do lar, já que também não há outra coisa a fazer. Minha rotina tem sido esperar, dormir, preparar as refeições (aprendo a cozinhar), ler bastante, escrever um pouco menos, assistir telejornais, futebol e doses diárias de Two and a Half Men. Vejo a rua somente a cada quatro ou cinco dias, normalmente em horários propícios à conservação de minha vida no verão, ou seja, quando o sol já não exibe aquela faceirice ameaçadora. Então, normalmente quando desesperadamente preciso repôr a dispensa, caminho pelas ruas de Padova já em tom de despedida. Hoje mais uma vez subverti a lógica do menor esforço e caminhei cerca de 300 metros a mais para chegar ao mercado do centro.
Como qualquer outro lugar assolado pela tragédia que é o verão (exceção feita, obviamente, às cidades balneárias), Padova me manifestou uma melancolia inédita, mas previsível. As ruas desertas, aqui e ali alguns idosos sentados em cadeiras de praia em frente às casas, visivelmente consternados. O mesmo nefasto tom laranja-estivo do sol que se punha cobria o topo dos prédios, que aqui são baixos e se pode ver da calçada. Caminhei longas três ou quatro quadras sem enxergar viv’alma — presumivelmente todos na praia (meados de agosto é o ápice do período das férias italianas). Segui meu roteiro favorito, subindo a Via Altinate até a Piazza Garibaldi. Ali sim, algum movimento, gente que invariavelmente caminhava despreocupada, turistas em ponto-morto, distraídos a olhar para os lados e arrastar as sandálias.
A mesma corriqueira incompetência no mercado, que provoca filas abomináveis até num fim de tarde de metade de agosto. Não eram mais de 15 pessoas dentro do estabelecimento, três quintos delas esperando até 10 minutos para serem atendidas nos caixas. A volta foi menos lenta (eu carregava cerca de nove quilos em duas sacolas que temia não suportassem o peso). A mesma desolação: ruas vazias, a mesma coloração no topo dos prédios, nenhum som, nenhum movimento. Tive de conviver com a mesma sensação angustiante (ao menos para mim) daqueles verões gaúchos longuíssimos, as pessoas na praia, nada para fazer, ninguém à vista, o sentimento esmagador de solidão. Menos mal que a programação televisiva nesta época não é das piores…
Existe um profundo mal-entendido nessa história de unificação dos calendários brasileiro e europeu do futebol. A Veja, ansiosa como de costume, jogou para o presidente Lula a responsabilidade da iniciativa a partir de uma insatisfação com o desmanche do Corinthians e de uma conversa com Ricardo Teixeira. Diz a revista rancorosa que Lula teria se comprometido inclusive a convencer a Globo. Verdade ou não, a CBF iria anunciar em breve a alteração, que seria, basicamente, a de deslocar o início do campeonato brasileiro para agosto. Sei da má-fé da Veja há tempos, mas talvez seja fato real essa possível mudança, o que me leva a crer que mais alguém está de má-fé. Se diz que o motivo principal da iniciativa seria o de diminuir o fluxo de saída de jogadores para a Europa em meio ao campeonato. A Argentina tem calendário parecido ao europeu e ninguém por lá sabe de jogadores que tiveram a opção de esperar a temporada acabar para então se transferir ao Velho Continente. Além do fato de que se jogaria o campeonato brasileiro ao longo do verão, o que só pode ser uma piada de mau gosto — não precisa sequer projetar a volta do Paysandu, por exemplo, para concluir que uma partida de futebol em uma cidade onde a temperatura média estiva é de 37ºC é desumana.
A partir daí surgem inúmeros outros problemas. Estou longe, então a discussão para mim fica prejudicada. Não sei o que se fala, o que se pensa a respeito. Mas sempre pensei que, assim como as estações climáticas estabeleceram o calendário europeu e por mais que nosso inverno seja muitíssimo menos rigoroso (nosso verão compensa em sentido contrário), acho que deveríamos como motivação inicial manter o mínimo de seriedade ao discutir a possibilidade de jogos em tardes de sol escaldante — e não apenas no norte-nordeste do Brasil. Em segundo lugar, não resultaria positivamente na transferência de jogadores pelo simples fato de ser uma questão econômica e não temporal ou climática.
Sugestão
Acho que uma adequação possível e saudável seria não a de datas, mas a de forma. Objetivamente, cancelar a participação dos clubes mais importantes do Brasil nos campeonatos regionais e estender o Brasileiro de março a dezembro — com tempo útil de 10 meses, como os campeonatos europeus. Sei que é uma idéia polêmica (retiraria toda a maior atratividade dos pobres regionais, mas que continuariam a existir, acessíveis aos pequenos clubes), mas seria uma modernização em vista a um calendário mais racional. Com dois meses de férias (atualmente no Brasil as férias de jogadores não completam 30 dias) e os campeonatos nacionais e continentais distribuídos ao longo do ano, acredito que atingiríamos uma “civilidade” da qual ainda não dispomos na América do Sul.
Apenas para constar uma novidade (a meu ver preocupante) acerca do que tratei no post anterior. Na capa do site do Guardian de hoje, Thom Yorke, cabeça do Radiohead, anuncia que a banda irá “focar no download de singles e EP’s”. Agora vejam, se uma banda como Radiohead, talvez uma das mais criativas dos últimos 15 ou 20 anos, desiste da idéia de uma composição contextualizada — como sempre se esforçaram por fazer —, o que nos resta esperar do mundo da música como um todo num futuro próximo? Faixas isoladas lançadas em formato digital que viverá somente em players. Não que seja uma tragédia o fato do arquivo digital em si, não sei se fui claro até aqui. Mas é a criatividade que fica comprometida. É como se passasse a não mais existir os livros, mas pequenas histórias publicadas em no máximo duas páginas. Não vou avante nesse paralelo do álbum musical como um livro porque implicaria linhas e mais linhas que ninguém vai ler. Mas que é válido é.